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Arte & manhas | O artista é tão importante quanto o arroz e o feijão

Por: Luís Bogo
13/05/2022 12:53
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Divulgação A atriz Sônia Braga em cena de Gabriela, novela exibida pela TV Globo em 1975, baseada no romance de Jorge Amado "Gabriela, Cravo e Canela"
A atriz Sônia Braga em cena de Gabriela, novela exibida pela TV Globo em 1975, baseada no romance de Jorge Amado "Gabriela, Cravo e Canela"

Há um desprezo inerente na sociedade pelo trabalho não braçal, chamado “intelectual”, mas as pessoas que o desprezam são as primeiras a correr para a frente da TV para assistirem a filmes, novelas, documentários, shows musicais ou mesmo a eventos esportivos.

Quem assiste a estes programas, especialmente os que envolvem atores e músicos, certamente se comove com algumas cenas, identifica-se com situações, abre sorrisos ou derrama alguma lágrima.

Porém, na maioria das vezes, o sensibilizado espectador se esquece que por trás do personagem existem os artistas que os criaram e imaginaram para, posteriormente, transferi-los ao papel até que outros artífices de luzes, sons, figurinos, cenografia preparassem o palco para o “parto” da cena, que ocorre ao vibrante grito de “ação” do diretor. Estamos cometendo uma injustiça atroz para com os artistas que nos proporcionam momentos de enlevo e fantasia.

O mundo financista e mecanicista, alimentado pela insensibilidade de governos autocráticos e ignorantes, desprezam a arte como manifestação da cultura de seus povos, esquecendo-se de que é o artista que acalenta a tarde do agricultor enquanto ele capina com seu rádio de pilha por perto; que é o artista quem ilumina as paredes da sua casa, que seria apenas branca, ou nua e sem vida, caso não tivesse um quadro a enfeitá-la. E que são os artistas que levam alguma "fantasia real" às suas almas, que alimentam sonhos e dão combustível para seguirmos nesta jornada que chamamos vida: esta “coisa” que imita a arte ou é imitada por ela.

A arte é expressão de amor, mesmo quando retrata cenas cruéis, pois as reflexões sobre a crueldade é que podem nos fazer melhores. Estamos vivendo um período no qual a maldade prospera: atualmente, ONGs destinadas a arrecadar ração para gato e cachorro têm orçamento maior do que algumas que cuidam de gente. Nada contra gatos, cachorros e quem cuida deles. São seres vivos tão importantes quanto as minhocas que adubam o solo e minhas ideias, mas o tema merece reflexão...

E as melhores ideias me vêm da insônia que sempre me acomete bem antes do alvorecer, quando sei que o telefone não tocará e que a escuridão não permitirá que eu veja a toalha a balançar no varal ou um cachorro a mendigar marmita.

Na madrugada, ao pensar nesta cruel dicotomia, neste “solidário-contraditório” que une fantasia e realidade, é fundamental que eu volte a “filosofar”, a buscar na alma o conhecimento necessário para decifrar um mistério que atormenta a humanidade desde os seus primórdios, mas que se agudizou na modernidade: Por que se tornou crime o desejar?

Ainda tenho horas até o dia o alvorecer. Então, penso: quando o que se deseja não tem nome, é mais simples o desejar. Complicado é aquele desejo com nome, sobrenome, apelido e endereço. É o desejo que embriaga, porque o amor romântico não é sóbrio. É coisa louca. E o ato de falar ou escrever sobre ele é comprometedor.

Enquanto escrever um texto jornalístico é relativamente fácil, mesmo na balbúrdia de uma redação, expressar ideia própria, mesmo que de forma poética, exige coragem para a exposição pública, para abrir-se ao mundo. Quando tentei ser romântico, o pragmatismo feminino me destruiu, pois há técnicas para se noticiar um fato e nenhuma exatidão ou certeza de resposta quando se expressa sentimento; seja em prosa ou Poesia.

Freud afirmou: Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro. É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização". E a carne é a responsável pela reprodução e perpetuação da vida.

Analogicamente, o artista nos resgata histórias, interpreta o passado; promove lembranças e nos faz destilar os erros cometidos; gera e produz esperança através de músicas, pinturas, interpretações. Perpetuando certa esperança que nos estimula a perseverar, a acreditar em dias melhores, a sonhar com um futuro mais limpo, mais justo e isento de riscos desnecessários aos nossos descendentes.

Para a manutenção da carne, basta-nos o arroz, o feijão, alguma batata e água. Para a manutenção e expansão da alma, precisamos do artista: ele é tão necessário quanto o arroz e o feijão.



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