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Entrevista | Deputada Paulinha expõe lutas do mandato e aponta rumo partidário

Por: Marcos Schettini
21/08/2021 13:42
Vicente Schmitt/Agência AL

Ana Paula da Silva, conhecida como Paulinha, é voz firme dentro Parlamento catarinense. Membro da Bancada Feminina, a deputada estadual teve o mandato marcado por duros desafios, como liderar o Governo Moisés na Alesc quando não havia diálogo entre Legislativo e Executivo, e recentemente com a expulsão do PDT.

Convicta em seus ideais, com bandeiras em defesa da educação e das mulheres, a parlamentar concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Marcos Schettini e falou sobre as ações que tem realizado em Santa Catarina. Atualmente, mais distante do governador, afirma que o respeito e o carinho sempre prevaleceram. Ainda, comentou sobre democracia, eleições 2022 e elencou qualidades partidárias necessárias para sua filiação. Confira:


Marcos Schettini: A senhora ainda não definiu o seu rumo partidário. Por quê?

Paulinha da Silva: Aguardo as movimentações da reforma política, em discussão agora no Senado. Devemos reunir nosso grupo político em outubro pra tomar uma posição.


Schettini: Qual partido se identifica com sua linha de atuação?

Paulinha: Lamentavelmente, os partidos enfrentam uma enorme crise de credibilidade para com a população, principalmente porque, na prática, muitos não agem de acordo com o que pregam. Veja o que aconteceu comigo, depois de 32 anos no PDT. Defendemos a educação acima de todas as coisas, e apoiar um governador que aumentou de 60 para 300 milhões os recursos para estudantes universitários foi errado? O apoio ao Moisés foi o pretexto que o grupo partidário achou para se livrar de mim porque não aceitava a liderança de uma mulher corajosa, essa que é a verdade. Hoje, além de ideologia política, antes de filiar num partido também temos que avaliar outros valores, como ética, democracia, respeito. Mas a tendência da nossa caminhada é pelos partidos mais progressistas, com toda a certeza.


Schettini: Qual o projeto eleitoral nacional que a senhora melhor se identifica?

Paulinha: Como a maioria dos brasileiros, aguardo uma alternativa que fuja dos extremos, e que tenha capacidade de unificar o país em torno de um projeto nacional de desenvolvimento seguro, sustentável, e que de fato valorize a educação como forma de transformação efetiva da nossa nação. Acredito que novos nomes devem surgir nos próximos meses. A escolha do projeto nacional que faremos, seguramente, deve se incorporar a agremiação partidária que vamos assumir. E esse é um dos motivos pelos quais a escolha da definição partidária tem que ser muito bem pensada.


Schettini: Extrema direita ou esquerda? O que o Brasil precisa? Centro?

Paulinha: Estamos vivendo tempos agressivos, e eu não enxergo nos extremos a capacidade de conduzir o Brasil, com toda a franqueza. Precisamos de um projeto nacional que traga equilíbrio para a nação, e que seja capaz de valorizar os enormes potenciais desse povo que está aí fora, que ainda se vê exposto a dificuldades que não fazem mais sentido. O país precisa reciclar suas lideranças, e vencer essa marca de preconceito e intolerância que ganhou as ruas e as redes sociais nos últimos tempos. Sinceramente, continuo esperançosa que teremos novas alternativas por aí. Nossa democracia está amadurecendo, as pessoas comuns, o cidadão, cada dia mais tem a percepção da sua importância no cenário eleitoral, e isso é muito positivo.

Schettini: Quais as bandeiras que a senhora tem defendido, mas não avançam?

Paulinha: Seguramente, a questão da violência contra a mulher ainda é uma das mais aflitivas, os números estão aí pra nos mostrar diariamente o quanto nossas mulheres ainda são agredidas e mortas. Em breve, a Bancada Feminina deve se reunir com o governador Moisés para apresentar-lhe algumas medidas de enfrentamento que podemos tomar em conjunto para fortalecer essa proteção. Outra pauta que ainda avançamos lentamente é o fomento ao terceiro setor. Mesmo com as leis de incentivo, o Sul é a região que menos faz doações para as suas organizações. Precisamos mudar esse quadro, e por isso temos um projeto de lei bastante audacioso nesse sentido, sendo discutido na Alesc. Já a minha maior preocupação, a mais emergente, é com a expectativa de exploração de petróleo em nossas águas sem estudos prévios, o que é inadmissível. Temos lutado muito pra reverter um leilão que está por se finalizar em outubro, promovido pela ANP. De outra sorte, tenho a alegria de ver novas ações com muita consistência executadas pelo governo estadual, lideradas pelo governador Moisés, como a retomada de investimentos na recuperação de rodovias por todo o Estado, a valorização de políticas voltadas para os pequenos municípios, a criação do “SC Mais Pesca”, que é o primeiro programa de infraestrutura do Brasil, os investimentos que se multiplicam na agricultura...

Na educação também estamos avançando, com medidas de valorização dos professores e, finalmente, a retomada das reformas das unidades de ensino. A expectativa agora é a resolução dos problemas na área da saúde, com o arrefecimento da pandemia, que nos dará condições de assumir grandes mutirões para a realização de cirurgias, e também repactuar os serviços ofertados para o cidadão, tornando-os mais rápidos e mais perto de suas residências. Acredito que a política de valorização profissional, alcançando a segurança pública, os servidores da saúde, da cultura, das demais áreas administrativas também será uma realidade em breve.


Schettini: Que tipo de eleição haverá em 2022?

Paulinha: Estamos vivendo um momento muito quente da nossa democracia. As pessoas estão, de modo geral, muito revoltadas e descontentes com a política, e isso contribui para que cada vez mais se tornem exigentes em relação ao voto. Acredito que o eleitor vai pensar melhor antes de fazer a sua escolha, e por isso percebo que o clima de renovação ainda vai rondar as urnas, mas agora com mais cautela da parte do eleitor, que quer acertar mais. As pessoas começam a se importar com o seu candidato, elas querem ter orgulho do seu voto. O discurso vazio sem trabalho, sem resultado, já não vai ser tão atraente nessa eleição.

Schettini: A senhora se afastou do governador Moises. O que houve?

Paulinha: Um processo natural, deflagrado com a minha saída da liderança do governo. Ademais, na época o Moisés não tinha aliados na Alesc. Ao retomar o diálogo com o parlamento, ele precisava dedicar-se a reconstruir outras relações, tempo em que aproveitei para dedicar-me com mais paixão ao meu mandato. Foi muito sofrido todo o processo de impeachment e, naquele momento, por defender o Moisés quando ninguém mais defendia, também me desgastei muito com o Parlamento. Era preciso dar espaço para essa nova base. Mas o respeito e o carinho entre nós sempre prevaleceu.


Schettini: O PDT acusa a senhora de traição às ideias do partido. Em que eles têm ou não razão?

Paulinha: Olha, se tem algo que eu de fato não cometi foi qualquer gesto de traição. Meu erro foi ter feito mais votos na eleição passada do que o Rodrigo Minotto e o Manoel, essa que é a verdade. Porque foi a partir daí que começaram as retaliações. E mesmo tendo feito todo o esforço para manter a harmonia, apoiando o Rodrigo pra vice-presidente da Alesc, por exemplo, ainda que tivesse feito o dobro de votos dele, não fui “boazinha” o bastante. Neguei-me a requerer cargos para o partido quando fui convidada a assumir a liderança do Governo Moisés. Neguei a nomeação em meu gabinete e na liderança a pessoas indicadas pelo partido que entendia como inapropriadas para o serviço público. Clamei para, na condição de vice-presidente estadual eleita, assumir o partido, na fragilidade visível do Manoel. Queria a distribuição do fundo partidário nas eleições municipais de forma equânime para todos os nossos candidatos. Queria reuniões, queria a democracia. Essa expulsão foi uma estupidez, uma violência, que se somou a outras tantas que sofri no partido desde que fui eleita. Mesmo assim, reconheço que os erros cometidos contra mim vão além da pessoalidade. Há um conflito ai no modo de se conduzir uma agremiação partidária, e, sob essa perspectiva, talvez o meu erro tenha sido não aceitar essas regras. Mas eu fui muito bem treinada por um homem chamado Leonel Brizola, e isso nem a expulsão vai arrancar de mim. Não me falta coragem para defender o que é certo. Mesmo que tenha que pagar um preço por isso. Se queremos mudar esse país, temos que parar com esses conchavos partidários que escravizam pessoas e corações. E eu não estou na política de passagem. A minha vida foi entregue e dedicada a Santa Catarina. Portanto não vou pactuar com aquilo que não é correto e decente jamais.

Schettini: Fala-se muito em impeachment do presidente Jair Bolsonaro. A senhora é a favor ou contra?

Paulinha: Minhas restrições ao Governo Bolsonaro são inúmeras e inconciliáveis, no entanto não podemos abrir mão de uma reflexão responsável em relação ao nosso país: qual o impacto nas políticas internacionais, econômicas e fiscais de um novo impeachment no Brasil nesse momento? Quais sansões estaríamos sujeitos e qual o tamanho do impacto para a nossa economia, principalmente para os mais humildes? Para quanto subiriam as taxas de desemprego no Brasil? Será que as pessoas que falam em impeachment agora têm discernimento de quanto está o preço da gasolina hoje? Na real, quem pagará a conta de um impeachment é quem já está mais fragilizado. Francamente, em pouco tempo temos uma eleição presidencial, penso que os adversários do governo têm sim uma grande oportunidade de mostrar o que podem fazer de melhor para o Brasil, concentrando a sua energia no convencimento do povo brasileiro de que um novo projeto de nação é factível. Acredito vivamente na democracia das urnas, e ela deve ser respeitada, acima de todas as coisas.


Schettini: Qual será o seu destino eleitoral em 2022? Que espaço político cabe em sua liderança?

Paulinha: Por um instante, a sua pergunta me levou a momentos que vivi desde que me tornei deputada, e me trouxe um mar de sofrimentos que colhi no Parlamento... Chegou a me dar um aperto no peito. E é exatamente por isso que me sinto no dever de me colocar à disposição do povo catarinense para continuar tentando mudar esse quadro. A política parlamentar precisa de menos estratégia e de mais amor, mais conciliação, mais espaço para quem de fato depende que os governos funcionem. Menos interesse. Menos ciúme. Menos disputa pelo poder e mais devotamento para com o seu povo. Em meu coração sinto que tenho que seguir contribuindo como deputada estadual, se assim o nosso povo entender, obviamente, embora muitos amigos me animem a dar passos adiante. Mas essas escolhas, para os idealistas, nunca passam pelas nossas vontades. O que dá sentido a minha vida não é um mandato, mas a luta incansável e intransigente por uma Santa Catarina mais justa, mais livre, com oportunidades para a nossa juventude, para a nossa gente. O que de fato importa é que nesse ou em outro ambiente continuarei lutando com todas as minhas forças por Santa Catarina. Com todas as forças da minha alma.


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