Close Menu

Busque por Palavra Chave

Arte & manhas | A sonoridade na música, na palavra e no silêncio

Por: Luís Bogo
29/01/2022 11:01
Divulgação O ator Tom Hulce interpreta Mozart, em "Amadeus", filme vencedor do Oscar em 1984 O ator Tom Hulce interpreta Mozart, em "Amadeus", filme vencedor do Oscar em 1984

Engana-se o dicionário que enxerga e define sonoridade apenas como sons agradáveis e harmônicos. Ela está até onde parece que não há.

Primeiro, quando ainda não havia nada, “nem gente, nem parafuso e o céu era então confuso”, fez-se a luz. Mas, para que a luz se fizesse, uma voz decisiva e possante navegou pelo vácuo a aproximadamente 340 m/segundo, o que nos faz supor que os sons regem este mundo desde antes que Deus nos conhecesse como gente ou como pó.

Embora a palavra possa ser decifrada por seus símbolos semânticos, sempre estará associada foneticamente ao objeto que descreve ou traduz; ou seja, a palavra carrega seu próprio som em sua essência, tem uma identidade sonora percebida de forma racional ou intuitiva.

Talvez eu esteja falando abobrinha, mas nada me parece mais parecido com uma abóbora do que a palavra “ABÓBORA”, repleta de redondos “O’s” e barrigudos “B’s”. Mas, o Xis da questão sobre o universo sonoro vai muito além de se entender as diversas formas de se pronunciar o “X” e de entender porque ele é diferente em um táxi ou em êxtase.

Da mesma maneira que admitimos haver várias formas de enxergar o mundo e suas situações, precisamos nos educar para melhor ouvi-lo, percebendo que o universo é permeado pela música, sonorizado por uma babélica orquestra capaz de nos surpreender com seus acordes harmônicos ou dissonantes, pelos sussurros galácticos ou pelas explosões vulcânicas.

Seja pelo canto quase inaudível do beija-flor à balbúrdia dos grilos e sapos festejando a lua; pelo assovio do vento que traz frio aos pampas às baterias da Sapucaí; pelas buzinas protestando no congestionamento ao pernilongo que impede o sono; pela sirene da ambulância ao carrilhão da igreja, nossos ouvidos são invadidos diuturnamente por ruídos, sons e informações diversas que aprendemos a selecionar, a apreender na memória ou descartar, deixando que entrem por um ouvido e saiam pelo outro.

Há a sonoridade impactante do silêncio, no instante que o estádio aguarda a cobrança do pênalti, e que de repente se avoluma na explosão do grito de gol. Há a sonoridade efusiva dos talheres e dos copos tilintando no banquete e a miserável sonoridade do estômago a roncar de fome. E a camuflada sonoridade do inimigo submarino captada pelo sonar.

Noite e dia convivemos com as sonoridades da alegria e do riso ou com o choro da tristeza e da dor. Há a sonoridade emocionante do ultrassom que revela o coração do bebê, ainda no ventre da mãe, e no abafado suspiro de quem se despede definitivamente de toda esta insana barulheira.

O som está presente na espuma clara da bucólica cachoeira e na enxurrada que lambe e engole a favela. Nos joelhos do encantador de serpentes há tanta sonoridade quanto no mortal instrumento do flautista de Hamelin.

A discussão sobre quem nasceu primeiro, a poesia ou a música, é tão antiga quanto a polêmica relativa ao ovo ou a galinha. Alguns antropólogos afirmam que a música é anterior à palavra, remetendo-nos aos primórdios em que a comunicação se dava através de tambores ou toscos grunhidos. No entanto, foram os gregos que “adicionaram” a música – harmoniosa sonoridade – para que seus teoremas e poemas fossem melhor memorizados durante suas sessões peripatéticas e que tais.

A sonoridade mais profunda, entretanto, está na sonoridade da quietude, quando nossos pensamentos submergem nas profundezas dos sonhos guiados por um imaginário solo de clarineta. Quando abrimos nossas antenas mais sensíveis ao exercício da solitude e travamos mudos diálogos com a nossa própria essência.

São nestes momentos especiais que percebemos a terrível “antissonoridade” da palavra não, porque o “não” pressupõe ausência, negação, proibição, restrição e limitação da liberdade de fazer e criar.

A sonoridade perfeita e poética vem da palavra que não encontra eco na pedra, mas no brilho silencioso do olhar e no pulsante coração.


Alesc - Motivação - Mobile
Rech Mobile
Publicações Legais Mobile

Fundado em 06 de Maio de 2010

EDITOR-CHEFE
Marcos Schettini

Redação Chapecó

Rua São João, 72-D, Centro

Redação Xaxim

AV. Plínio Arlindo de Nês, 1105, Sala, 202, Centro