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Arte & manhas | Um artista não morre, às vezes dorme um pouquinho

Por: Luís Bogo
21/04/2022 11:09 - Atualizado em 21/04/2022 11:09
Divulgação Da esquerda para a direita: A Graúna, de Henfil; Zé do Apocalipse, do Glauco; e a Rê Bordosa, do Angeli Da esquerda para a direita: A Graúna, de Henfil; Zé do Apocalipse, do Glauco; e a Rê Bordosa, do Angeli

A notícia de que o cartunista Angeli está se despedindo da carreira em função de uma doença degenerativa me pegou de surpresa. E me entristeceu.

Ele se aposenta e se afasta das tintas e canetas por conta de uma doença chamada “afasia”. É um mal degenerativo, e isto significa que ele não vai desenhar mais, não vai mais nos oferecer o humor ácido e reflexivo que desfrutamos nas tirinhas inesquecíveis da Rê Bordosa, do Walter Ego, ou do Wood & Stock.

Com Angeli não tive relação de amizade, embora tenhamos nos encontrado em alguns eventos e bares de São Paulo; no SESC Pompeia ou no antigo Ritz, da Alameda Franca, que nem sei se ainda existe. Porém, ao ler suas tiras e usufruir da inteligência e sarcasmo que emanavam de seus personagens, sempre me senti próximo a ele, como se fôssemos irmãos separados na infância por questões adversas, posto que temos idades bem próximas.

Por outro lado, fui amigo do Glauco, também cartunista, covardemente assassinado em março de 2020 por motivos religiosos. Glauco criou o Geraldão, o Casal Neuras, a Dona Marta e o Zé do Apocalipse, entre outros personagens que se tornaram emblemáticos a partir dos anos 1980.



Mas, Glauco e Angeli eram amigos, muito amigos. Por motivos distintos, suas carreiras foram interrompidas por razões que nenhuma luz de razão poderá justificar. São dois artistas que nunca precisaram usar as próprias vozes para se manifestarem em nome da Liberdade e da Justiça, ou mesmo para questionarem costumes burgueses e preconceitos.

Glauco teve seus traços interrompidos por morte estúpida e violenta. E, agora, seu amigo e parceiro Angeli vê-se obrigado a silenciar suas canetas e pincéis por conta de uma enfermidade degenerativa e cruel. Porém, os melhores traços de Glauco e Angeli permanecerão para sempre na memória de quem preza a liberdade de expressão, especialmente quando exercida com sagacidade e inteligência.

Ambos, quando a abertura política ainda engatinhava no Brasil, souberam driblar os censores e, a exemplo do inesquecível Henfil, colavam chicletes nas cadeiras dos milicos que ainda pensavam mandar neste país chamado Brasil.

Pessoas do calibre de Glauco e Angeli não atiram com 38, 45 ou 7.65. Suas armas eram canetas ou lápis nanquim bem delicados: 0.1, 0.2, ou 0.5 mm. Às vezes, suas críticas ferinas continham até lápis de cor.

E neste momento em que estamos novamente ameaçados pela ignorância verde-oliva, a ausência da sagacidade representada nas tiras e cartuns de Angeli e Glauco significa um grande desfalque aos que se empenham pela liberdade de expressão, ingrediente fundamental para o bom funcionamento da nossa sociedade, hoje tão contaminada por inverdades disseminadas com falsos selos cartoriais e pela corrupção dos valores republicanos.

Não custa nada relembrar Geraldo Vandré, pois hoje parece que há muita gente acreditando que mais vale morrer pela “pátria” do que viver com alguma razão.

Falei aqui de três gênios: Henfil, Angeli e Glauco. Também poderia citar Millôr Fernandes; os irmãos Paulo e Chico Caruso, Luis Fernando Veríssimo (que finge muito bem saber desenhar e ainda toca saxofone nas horas vagas), e muitos outros que sempre usaram os seus talentos para soprar um pouco de alegria e ironia sobre as situações mais cinzentas.

Estas almas jamais perecerão. E, de uma forma ou de outra, Angeli ainda deixará seus traços, com ou sem desenhos. Ele só está descansando um pouquinho.



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