Ex-ministro do Turismo, presidente da Embratur no Governo Temer e secretário de Turismo de SP do Governo João Doria e Rodrigo Garcia, atualmente Vinicius Lummertz é o presidente do conselho do Grupo Wish de Hotéis e Resorts.
Conhecedor de um debate político e turístico importante para o Brasil, o ex-ministro tem sido sempre consultado país afora quando o assunto é empreendedorismo, desenvolvimento e turismo. Foi diretor do Sebrae SC, do Sebrae Nacional e presidente da Acif. Formado em Ciências Políticas pela Universidade Americana de Paris, possui cursos de Gestão na Universidade de Harvard e no IMD, de Lausanne, na Suíça.
Secretário chave nos governos LHS e Pavan, ocupou conselhos nacionais e internacionais de diversas empresas e institutos. Agora, mergulhado na vida privada, concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Marcos Schettini e deu um panorama sobre a política nacional e catarinense, apontando quais seriam os rumos ideais a seguir para o Brasil dar um salto significativo. Confira:
Marcos Schettini: Passados quase seis meses dos governos federal e estadual, qual sua avaliação?
Vinicius Lummertz: Ainda é cedo pra concluir, contudo, o Governo Federal pode ter se esforçado, mas, não maximizou o “estado de graça“ dos 6 primeiros meses. O presidente Lula, todos sabemos, encontrou um país diverso daquele herdado de FHC, mais complexo, mais dividido e com um Congresso diferente, mais liberal e conservador. De 2003 para cá, o chamado Centrão veio aglutinando muito mais poder e remetendo o regime político para um semiparlamentarismo de fato, paradoxalmente por uma fragmentação partidária.
Schettini: O que o Governo eleito deveria estar fazendo?
Lummertz: Penso que o governo poderia estabelecer prioridades estratégicas mais altas, encarar a necessidade de grandes reformas, realisticamente, e falar mais do futuro e menos do passado. Poderia levar ao Congresso pautas mais passíveis de consensos e mais inspiradoras. As chamadas reformas modernizantes iniciadas por FHC e priorizadas por Temer - e mesmo por Paulo Guedes. Mas não foi o que aconteceu. Vieram bolas divididas muito cedo. Mexer no retrovisor do marco do saneamento já aprovado no Congresso e tentar aprovar o projeto das fake news ainda verde, produziram tensões diversionistas. Também, os episódios de invasões pelo MST esgarçaram a aliança da esquerda com parte da centro-esquerda, centro e da centro-direita. Vejo tudo isso mais como reflexos cognitivos sobre as agendas do passado e menos sobre agendas de futuro que a alma da nação clama, de fato.
Schettini: E o Governo iniciado em Santa Catarina?
Lummertz: Sobre Santa Catarina, estou acompanhando menos. O governador Jorginho mostra muita agilidade administrativa. É rápido. Mas não conheço o horizonte político que ele está construindo. Também não está claro o grau de estabilidade nas relações com a Assembleia Legislativa que nas últimas legislaturas, como em Brasília vem crescendo em suas pretensões no jogo político - aqui mais discretamente, e também causada pela mesma fragmentação partidária. Também não está inteiramente claro como o atual governo irá de fato arregimentar os blocos de centro que encolheram no Estado.

Schettini: O Turismo é uma indústria que cresce no mundo inteiro. Em que estágio SC está neste segmento?
Lummertz: Nosso Estado é um dos lugares mais diversos do planeta. Isto está escrito no relatório da Oxford Economics feito para o WTTC - Fórum Econômico Mundial, e apresentado no Summit de 2008 em Florianópolis, que organizamos. Neste mesmo estudo mediu-se o PIB do turismo em 12,5% do total. Mas quando você me pergunta sobre o estágio do turismo catarinense, a resposta é simples: avançou muito, mas não angariou prestígio a ponto de se transformar numa prioridade estratégica do Estado. Me permita dar-lhe um exemplo metafórico, ainda que desproporcional. A Arábia Saudita está investindo 3 trilhões de dólares em destinos turísticos para se preparar para a era pós-petróleo. Quer faturar mais como hub turístico e de negócios do que os 250 bilhões de dólares que fatura com a venda de petróleo atualmente.
Schettini: O turismo não é uma área cara? Como fortalecer este setor?
Lummertz: De longe, amaior parte dos investimentos é privada. Cabe ao Estado viabilizar a infraestrutura básica indutora também por meio de investimentos, de concessões e PPPs. É preciso ter um ótimo Plano Estadual de Turismo, com desdobramentos em todas as regiões, identificando e enfrentando os gargalos de infraestrutura e do ambiente de negócios. Se me coubesse opinar sobre o ambiente de negócios, mas já opinando [risos], eu diria que o Governo do Estado poderia mergulhar profundamente nesta questão. Por exemplo, sabemos porque contamos com 60% da indústria náutica de lazer do Brasil como fruto da baixa taxação de impostos que iniciamos em 2008, mas não sabemos por que temos tão poucas marinas, ou por que tão poucos resorts, como também apenas um grande parque temático, o Beto Carreiro, que poderia ter inspirado outros... Ou mesmo, por que temos tão poucas bandeiras de hotéis internacionais? Por que, mesmo depois de tantos parques naturais criados, ainda não temos um relevante turismo de natureza? A resposta, se bem estudada, aparecerá concentrada no fruto envenenado da instabilidade jurídica que afasta bilhões em investimentos. A região da Grande Florianópolis, aonde está a capital de todos os catarinenses, talvez seja o quadro mais grave, sobretudo causado pelo apetite intervencionista e ideológica indevida de alguns personagens de órgãos federais.
Schettini: Qual é a imagem que SC tem Brasil afora?
Lummertz: A imagem que SC construiu ao longo dos últimos 30 anos foi muito promissora e grata para com os brilhantes feitos de nossa gente e de nossos governos estaduais e municipais. Éramos o zero da 101 e passamos a ser a nova joia do Sul do Brasil. Nossa imagem virou reflexo de grandes marcas, de grandes empresas que emergiram em todo o Estado a partir de micros e pequenas empresas. Também, o turismo dourou nossa imagem pela diversidade paisagística, humana e cultural de Santa Catarina, como complexo e variado mosaico. Mais recentemente, viemos perdendo uma boa parte desta excelente imagem por conta do debate nacional que não permite nuances e, que, por vezes, nos coloca apenas como radicais insensatos, que é algo que não somos.

Schettini: SC não deixou de ser um Estado muito mais envolvido no debate nacional? Por que isso acontece?
Lummertz: Somos um Estado exemplar e diferenciado e sempre que nos elevamos no debate político, o fato de sermos catarinenses, oriundos de uma sociedade bem-sucedida, isso nos favoreceu. Não somos um Estado de grande mercado e nem de grande população. Somos um Estado produtor, criativo, inovador, artístico, turístico, ambiental e com grandes contribuintes de um Brasil que dê certo. Nossa diferenciação não pode ser engolida pela homogeneização nacional, pois seremos diluídos. Nosso caminho é o da qualificação em todas as áreas - inclusive na área política. Já tivemos um presidente, Nereu Ramos, e chegamos a ter os presidentes dos três maiores partidos do Brasil, com Luiz Henrique, Jorge Bornhausen e Espiridião Amin. E como diz o ditado: “quem não é o maior tem que ser o melhor”. Não podemos colocar essa lógica e esta percepção em risco. Promover e divulgar o turismo também ajudaria a manter nossa identidade e nossa reputação.
Schettini: O ano que vem tem eleição municipal. Quais seriam as medidas para evitar novos extremismos? Ou não tem mais cura?
Lummertz: Isto não sabemos. Espero que possamos sair disso o mais rápido possível. Se o que estivermos vivendo nos servir para aprendermos a valorizar a democracia, teremos a evolução do país e, dialeticamente, poderemos nos libertar e crescer. Se a divisão continuar, teremos uma contínua regressão cultural. Porque o que se fala e o que se pensa tem consequências em atos, gestos, nas gestões, na política, nas empresas, nos empregos e no desenvolvimento econômico e social do Brasil. As eleições municipais em SC deveriam tratar das pautas municipais, só assim ganharemos.

Schettini: O Sr. está na iniciativa privada. Por quê?
Lummertz: Ao longo da minha vida pública sempre convivi com a iniciativa privada. Tanto na direção do Sebrae de SC e do Sebrae Nacional, como na minha carreira no turismo. Por muitas vezes recebi convites da iniciativa privada - desta vez decidi aceitar o convite para presidir o conselho de administração de uma empresa de turismo, o Grupo Wish, aonde continuo a trabalhar pelo turismo, pelo empreendedorismo e pelo desenvolvimento econômico. De aonde estou, continuo participando de iniciativas e debates de interesse público - mas, agora o chapéu é outro.
Schettini: Qual seria, na sua visão, o envolvimento empresarial nas eleições? Citando a Fiesc e Fecomércio como exemplo...
Lummertz: A fase de divisão política que o Brasil vive é muito rasa, excludente e encobre uma regressão grave. Isso exige das instituições empresariais maior geração de pautas positivas e concretas. Entidades como a Fiesc, Fecomércio, Facisc, Faesc, Ampes, e tantas outras como o Floripa Sustentável, e mesmo as universidades e a sociedade civil, têm maior espaço para ocupar e ajudar nas formulações e busca de soluções. É um chamamento histórico de maior amplitude de dever para pensar, prover projetos e influenciar sem competir com a política.

Schettini: O Sr. percebe um certo cansaço do eleitor em apostar no extremismo? Ou será assim?
Lummertz: A política não tolera vácuos. Na medida que surgem agendas racionais e produtivas, podem ser oferecidas alternativas ao histrionismo que o extremismo propicia. As pessoas irão se interessar por desenvolvimento econômico, educação, saúde e infraestrutura, se surgirem propostas novas. Veja o caso das estradas catarinenses quando comparadas com as excelentes estradas de São Paulo, que vem privatizando suas rodovias por quatro décadas. À medida que se construa um mutirão de mudanças bem sucedidas, as pessoas se interessarão em caminhar junto e para frente.
Schettini: Seu nome ventilou muito na eleição passada. Qual seu futuro dentro da vida pública?
Lummertz: Continuo interessado na política porque dela depende todas as ações na sociedade. Minha forma de contribuir na iniciativa privada, aonde estou, sempre será colaborativa para ajudar o Brasil pelo associativismo empresarial. Da política, diretamente, estou de férias.

Schettini: Como o senhor vê o Brasil do futuro? O que precisa?
Lummertz: O Brasil precisa de um projeto de país. Precisamos ter ambição nacional, ambições estaduais e municipais. É preciso que elas sejam explícitas, para que pessoas e famílias possam ter suas ambições projetadas. O caminho passa pela promoção de condições objetivas de afluência social pela criação de uma verdadeira classe média produtiva e afluente. Assim fez a Europa, EUA, Canadá, os tigres asiáticos e a China, de quem todos reclamam, mas que tem como seu projeto central a criação de uma classe média. Quem não tem projeto, vira projeto dos outros. Com coragem para fazer reformas e mudanças, o Brasil daria um grande salto de desenvolvimento. O Brasil é um país grande, a maior potência ambiental do planeta, mas que pensa pequeno. Qual a solução? Pensar grande e agirmos de acordo com nosso tamanho e com o que o mundo espera de nós: que sejamos uma parte das soluções para nós mesmos e para o planeta.
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