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ALIANÇA SINO-RUSSA

Putin e Xi Jinping reforçam parceria estratégica na Cúpula da OCX

Kristina Solovyova/POOL/AFP Na Cúpula da OCX em Bishkek, Vladimir Putin e Xi Jinping reforçaram a parceria estratégica sino-russa em defesa de uma ordem global multipolar Na Cúpula da OCX em Bishkek, Vladimir Putin e Xi Jinping reforçaram a parceria estratégica sino-russa em defesa de uma ordem global multipolar

Por Vitória Schettini

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente da China, Xi Jinping, reforçaram a parceria estratégica entre os dois países durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), realizada em 31 de agosto de 2026, em Bishkek, no Quirguistão.

Durante o encontro, os dois líderes defenderam uma ordem internacional mais multipolar, com menor concentração de poder nos Estados Unidos e nas potências ocidentais. A reunião também serviu para ampliar a cooperação entre Moscou e Pequim em áreas como energia, tecnologia, comércio, logística e segurança.

O movimento ocorre em um cenário de crescente rivalidade entre China, Rússia e países ocidentais, especialmente após a guerra na Ucrânia e o aumento das sanções contra Moscou.

OCX BUSCA AMPLIAR INFLUÊNCIA

Criada em 2001, a Organização de Cooperação de Xangai reúne China, Rússia e países da Ásia Central e, ao longo dos anos, ampliou sua composição para incluir países como Índia, Paquistão e Irã, além de outros membros e parceiros.

O objetivo oficial da organização é promover a cooperação em segurança regional, economia e coordenação política.

Na prática, a OCX vem ganhando importância como fórum de articulação entre países que defendem maior autonomia em relação às estruturas políticas e econômicas dominadas pelo Ocidente.

A organização completa 25 anos em 2026 e busca ampliar sua relevância internacional, especialmente diante da crescente competição geopolítica entre grandes potências.

RÚSSIA QUER REDUZIR DEPENDÊNCIA DO OCIDENTE

A aproximação entre Moscou e Pequim ganhou força nos últimos anos.

Depois da invasão da Ucrânia, em 2022, a Rússia passou a enfrentar uma série de sanções impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e outros países ocidentais. Com o fechamento de mercados e a restrição ao acesso a tecnologias e investimentos ocidentais, Moscou aumentou sua dependência econômica de parceiros como a China.

Pequim se tornou um dos principais destinos das exportações russas de energia, especialmente petróleo e gás.

A parceria também se expandiu para áreas consideradas estratégicas, como inteligência artificial, exploração espacial, logística e infraestrutura.

ENERGIA E COMÉRCIO

A energia continua sendo um dos principais pilares da relação entre Rússia e China.

A China ampliou a compra de petróleo e gás russos, enquanto Moscou encontrou no mercado chinês uma alternativa para parte da demanda perdida em razão das sanções ocidentais.

O comércio agrícola também apresenta crescimento. As exportações russas de produtos agrícolas para a China aumentaram 34% em 2026, segundo os dados apresentados no contexto da aproximação bilateral.

Além do comércio tradicional, os dois países trabalham para ampliar rotas logísticas que reduzam sua dependência de corredores controlados ou influenciados por países ocidentais.

Entre os projetos discutidos está a utilização da Rota Marítima do Norte, no Ártico, por embarcações chinesas, além de iniciativas conjuntas nos setores de tecnologia, inteligência artificial e espaço.

ACORDO DE ISENÇÃO DE VISTOS

Outro destaque da aproximação foi a proposta de tornar permanente o regime de entrada sem visto por até 30 dias entre os dois países.

A medida já teria contribuído para um aumento de 43% no turismo bilateral em 2026.

A ampliação da circulação de cidadãos entre Rússia e China é vista pelos dois governos como uma forma de aprofundar os vínculos econômicos e sociais, além de estimular o turismo e os negócios.

SEGURANÇA E TECNOLOGIA GANHAM ESPAÇO

A cooperação entre Moscou e Pequim também ultrapassa as áreas econômica e comercial.

Rússia e China ampliaram a coordenação em segurança e tecnologia, incluindo projetos relacionados à inteligência artificial, ao espaço e à logística.

A aproximação ocorre paralelamente ao aumento das tensões de Moscou e Pequim com os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Embora os dois países tenham interesses próprios e nem sempre adotem posições idênticas sobre questões internacionais, ambos defendem a construção de uma ordem mundial menos dependente das estruturas lideradas por Washington.

DEFESA DE UM MUNDO MULTIPOLAR

A defesa da multipolaridade se tornou um dos principais pontos de convergência entre Rússia e China.

Moscou e Pequim argumentam que o sistema internacional deve ser formado por diferentes centros de poder, em vez de permanecer concentrado nos Estados Unidos e em seus aliados.

A estratégia também busca ampliar a participação de países do chamado Sul Global em organizações e mecanismos internacionais alternativos ou complementares às instituições dominadas pelas potências ocidentais.

Nesse contexto, Rússia e China procuram estreitar relações com países como Irã, Turquia e Belarus, ampliando sua capacidade de influência política e econômica.

RELAÇÃO JÁ FOI MARCADA POR RIVALIDADE

Apesar da proximidade atual, Rússia e China nem sempre foram aliadas.

Durante boa parte do século XX, a relação foi marcada pela rivalidade ideológica entre a União Soviética e a China comunista. A ruptura entre Moscou e Pequim se aprofundou durante a década de 1960, quando os dois governos passaram a disputar influência dentro do movimento comunista internacional.

A situação começou a mudar após o fim da União Soviética.

Durante a década de 1990, Rússia e China iniciaram um processo de aproximação baseado principalmente na resolução de questões fronteiriças, no comércio e na cooperação política.

Em 2001, os dois países assinaram o Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, considerado um dos principais marcos da parceria moderna.

SANÇÕES E GUERRA DA UCRÂNIA

A partir de 2014, as sanções ocidentais impostas à Rússia após a anexação da Crimeia contribuíram para aproximar ainda mais Moscou de Pequim.

A situação se intensificou após a invasão da Ucrânia em 2022. A China evitou condenar diretamente a Rússia e manteve relações comerciais com Moscou, enquanto a Rússia ampliou sua dependência do mercado chinês.

O resultado foi uma parceria econômica e política mais estreita, ainda que Pequim procure preservar margem de manobra própria em relação à guerra e às demais disputas internacionais.

OCX COMO FÓRUM ALTERNATIVO

O fortalecimento da relação entre Rússia e China também aumenta o peso político da Organização de Cooperação de Xangai.

Com uma composição que inclui grandes economias asiáticas e países estratégicos do Oriente Médio e da Ásia Central, a organização pretende ampliar a cooperação regional e oferecer uma plataforma de articulação política fora dos tradicionais centros de poder ocidentais.

Para Moscou, a OCX representa uma oportunidade de reduzir os efeitos do isolamento internacional. Para Pequim, o bloco ajuda a ampliar sua influência regional e fortalecer redes de comércio, energia e infraestrutura.

UM NOVO EQUILÍBRIO DE PODER

A cúpula de Bishkek reforçou, portanto, uma tendência que vem se consolidando ao longo dos últimos anos: a transformação da parceria Rússia-China em um dos principais eixos da reorganização geopolítica internacional.

A expansão do comércio, a cooperação tecnológica, os projetos de infraestrutura e o alinhamento político aproximam os dois países em um momento de forte competição entre grandes potências.

Ao mesmo tempo, a consolidação da OCX e a aproximação com países do Sul Global indicam que Moscou e Pequim pretendem ampliar as alternativas às estruturas políticas, econômicas e de segurança lideradas pelo Ocidente.

O encontro entre Putin e Xi não representa apenas o fortalecimento de uma relação bilateral. Ele também sinaliza a tentativa de Rússia e China de construir uma rede internacional capaz de ampliar seu peso político e econômico e sustentar a visão de um mundo cada vez mais multipolar.


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