Close Menu

Busque por Palavra Chave

Memórias do Campo | Honestidade de Vida, Trabalho e Política

Por: Luiz Dalla Libera
24/09/2018 15:37 - Atualizado em 24/09/2018 15:42
Arquivo/LÊ Santo Matiello em foto tirada pelo LÊ em 2011 Santo Matiello em foto tirada pelo LÊ em 2011

Ele foi eleito pela honestidade. Santo Valentino Matiello foi o 8º prefeito entre os eleitos e nomeados e o 2º eleito pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), vulgo Manda Brasa. Santo era migrante de Veranópolis (RS), veio para Xaxim em 1933, com um pouco mais de um ano de vida.

A primeira moradia foi nas proximidades da madeireira Gabriel e o restaurante hotel, na saída a Chapecó. Após casado, foi fazer sua vida. Seu saudoso pai Vitorio Matiello, mudou-se mais perto da cidade, pelo motivo de um desprazer, a construção da BR-282, onde demoliram um belo parreiral, que foi destruído e arrasaram com uma fonte de água.

O Jornal LÊ NOTÍCIAS publicou, através do filho Edemar Mattielo, a vida geral do pai. Eu tive bons conhecimentos de Santo, desde o aniversário de emancipação de Xaxim, de sua vida e de sua profissão. O filho declarou que seu pai foi agricultor, motorista do próprio caminhão, industrialização de arroz, o descascador era tapona, madeireiro (sócio) da Tremaza, imobiliário, mas como bem conheci a vida de trabalho, o Santo na década de 1950, nas safras de trigo de 1955 a 1957, foi maquinista de trilhadeira de malhar trigo.

Naquela época, os agricultores produziam a farinha do próprio trigo, que era uma das maiores economias. Escrevi em outras colunas, que os operadores das máquinas de conservação das estradas saíam da cidade e ficavam na colônia nos vários dias. O mesmo acontecia com os maquinistas das trilhadeiras, saía na segunda e só voltavam no sábado. A região que Santo fazia era Linha Carola Maia, iniciava na parte de baixo e terminava só no perímetro urbano da Linha Limeira.

Era mais de um mês de serviço e depois, iam em outras linhas. Os triticultores não tinham muita pressa para malhar o trigo. Eram guardados os paióis e diziam que quanto mais armazenado na palha, melhor ficavam o grão específico. Posteriormente à família Matiello vender a trilhadeira, o morador da Linha Limeira, o Santo, dedicou-se no trabalho em ramos urbanos, como já foram citados, na trilhadeira. Foi árduo. Ele enfrentava sol forte e matava a sede tomando água no bico de garrafão.

Nos dias de malhadura, tudo podia faltar, menos a cachaça no trabalho. Todos bebiam, homens, mulheres, rapazes e moças. Os dias eram longos e o café era servido logo após um trecho de trabalho. Dizia que o cardápio reforçado era polenta, salame, ovos fritos, portaia e un buono vino.

Um problema sério era um motor de muito uso, que incomodava muito. Isso, o Santo nunca perdia a paciência, ou tinha desânimo, perdia até um meio dia ou mais perdido para consertar o motor. Um senhor que gostava de mentir e emendar os fatos, em Guaporé (RS), envolveu-se em uma briga e morte com uma arma branca. Disse que a vítima levou 200 facadas, o Santo com sua calma disse “Só duzentas”!

Na verdade, foram sete. O Santo podia ter dito “Não acredito nisso. É mentira”. Mas ele falou que eram 200, de forma calma e cautelosa.

CANDIDATURA

Na véspera das eleições de 1976, foi uma novidade para muitos, que um dos candidatos do MDB a prefeito de Xaxim ia ser Santo Valentino Matiello. Com 43 anos de vida, ele nunca havia se envolvido em política, tampouco na vida pública. Um dos motivos era muito calmo, sincero e duas coisas não aprendeu na vida: mentir e ser malandro. Poucos políticos não aprenderam essas más lições.

Foi apresentado na convenção e registrada a candidatura formaram uma chapa de três do MDB fazia uma soma de votos, a chapa adversária Arena tinha era um único candidato, que já foi o terceiro prefeito eleito de Xaxim. A campanha até foi calma, mas com uma novidade imprevista, de que a chapa do MDB venceu o Arena por 750 votos de proximidade de 60% dos votantes. Com certeza, Nildo Folle fez um grande governo, mas infelizmente, o candidato mais votado do MDB o juiz eleitoral não deu posse, por trabalhos particulares, não públicos.

Não sei quais foram. Seu eu soubesse, ficariam em sigilo. No Poder Legislativo, os vereadores foram empossados em 31 de janeiro. O Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina marcou novas eleições para prefeitos de Xaxim e Laurentino para 03 de abril. Quem assumiu o Poder Executivo foi Ari José Locatelli, pois naquela época quem assumia era o presidente da Câmara todo mandato, era o vereador mais votado, independente do partido.

Marcada a nova eleição, Santo não se sentiu derrotado ou desanimado. No fracasso, colocou seu nome de novo com outro vice, Gelson Sorgato, que na eleição anterior também concorreu na chapa de outro candidato, como vice. O MDB novamente concorreu com chapa de três e o mesmo aconteceu com Arena. Santo pegou mais reforços e novos candidatos concorreram com três na cabeça e dois vices. Era coringa de dois.

A campanha foi muito feroz, violenta e com muita luta, apesar de que a Arena teve uma força muito maior da recente campanha. O Governo do Estado (biônico) era Jorge Bornhausen da Arena e mais a comitiva que tinha apenas os municípios de Xaxim e Laurentino a de 1976, tinha cerca de 30 cidades se envolvendo na campanha. Certo também que o MDB na região só tinha Xaxim para a campanha, mas a força governamental é sempre mais forte, como na corda, que sempre arrebenta na parte fraca.

Até a primeira-dama do Estado, usando os direitos políticos, esteve num final de semana em Xaxim e aproveitou a oportunidade para ir à Missa. Naquela época, não havia o hábito de dar o abraço da paz, mas houve muitos abraços dentro e fora da Igreja. Ao lado do MDB, quem deu muita força foram os deputados Jorge Gonçalves da Silva (estadual), com domicílio em Xaxim, Nilso Locatelli de Chapecó, Ernesto José de Marco de Chapecó, Francisco Libardoni de São Lourenço do Oeste.

O MDB, com apenas quatro anos de governo passado recebeu críticas e cobranças de adversários, que antes governaram treze anos e não fizeram em uma obra da carga política na campanha, o que o MDB e Nildo não fizeram. Uma das críticas foi da primeira antiga Rodoviária, que era instalada a poucos passos do Jornal LÊ NOTÍCIAS, que hoje é atendida pelos proprietários do imóvel, a família de Itelvino Faé. Concordo que a peça da agência era pequena, mas a par disso, existia um bar com muito espaço dos mesmos proprietários. Quando abria a agência também abria o bar, fazendo sol ou chuva.

Alguns ônibus do Paraná, via Rio Grande do Sul, estacionavam no outro lado da rua, mas a critério dos motoristas, por ter pouca população. Mas havia mais população do que hoje, tenho certeza, porque na semana tinha ônibus que ia e eu venho a Xaxim de ônibus. Outra promessa para tirar votos do MDB foi a tal de eletrificação rural. Talvez fantasia, ou devaneio no Estado, pois existia um órgão chamado Eletrificação Rural de Santa Catarina (Erusc), que instalava as redes gratuitas.

A propaganda política tinha promessas e críticas contra um dos coordenadores de campanha. Nos discursos dos comícios, diziam “Atenção, proprietários de mato! Chega a tal de Erusc para comprar todos os cipós dos vossos matos para as redes”. Um dia, eu perguntei ao Santo em italiano “Vano e voleno guaradanhare e conseguire e midésimi bot’i? Lúi il gliá détto o piu”. Queria dizer: ˜Nós vamos ganhar e conseguir os mesmos votos? Ele me disse o mais!”. A vantagem de 150 votos foi considerada uma boa votação, mas diziam ganhando de 50 votos. Era ótimo, porque contra a força dos Governo do Estado e a União não foi nada fácil.

Ninguém aceitava a derrota. A campanha foi muito combatida, não pelos candidatos, mas sim pelas militâncias dos dois lados. Numa comunidade, um partido até foi impedido de fazer o comício pelos adversários. O partido impedido disse que foi a melhor noite a ter conseguido votos. Após, houve até segurança pública a favor daquele partido impedido.

Terminada a campanha, a Arena queria dar o troco político. Em 1972, com juros, multas e correções, houve até mortes, em dias e locais diferentes. Naquele período da eleição, as autoridades cancelaram as licenças dos bailes em todo o município. Mas foi realizado um baile de casamento em Carola Maia, que à época pertencia a Coronel Freitas, foi um record de movimento, nunca visto antes na história.

Enfim, em 16 de maio de 1977 foi marcada a posse de Santo Valentino Matiello e do vice Gelson Sorgato. Daquele dia em diante, Xaxim passou uma vida calma voltada ao trabalho, esquecendo a política. Antes, Xaxim foi apelidado da terra de bangbang, por conta desses conflitos.

ADMINISTRAÇÃO

Apesar de Santo Matiello ter começado o governo com 75 dias de atraso, uma nova persistiu por seis anos (1977-1983). Conforme o antigo jornal Realidade, de 2004, o filho Edemar informou que na gestão de Santo Matiello foram criadas e aprovadas muitas leis e obras marcantes. Uma delas foi a energia elétrica rural, obra principal nos três ex-distritos, hoje Marema, Entre Rios e Lajeado Grande.

Ela foi muito mencionada e criticada na campanha pelos adversários. Repito, foi a continuidade, porque na minha comunidade Linha Limeira, já tinha energia e luz. Na gestão de Nildo Folle, a prefeitura contribuiu 100% com os transformadores. Em razão de ser uma rede nova, não foi necessária a manutenção pela Prefeitura. Todavia, no início de gestão de Santo Matiello, os transformadores começaram a incomodar a Prefeitura.

Posso dizer que fez sua parte do auxílio, com custo de consertos, frete do local a Xanxerê a Prefeitura. Tudo isso, ele acertava diretamente com a antiga Indústria e Comércio Orsato de Xanxerê. Sei disso porque eu era da diretoria, era tesoureiro pelos transformadores, nunca gastamos um centavo. O Santo colaborava, mas não esbanjava. Certo dia, no seu gabinete, ele nos atendeu e disse que o assunto era os transformadores. Um transformador a mais não tinha necessidade. O Santo disse que “querer é uma coisa, poder é outra”.

Enfim, que no final de 1979, num acordo de sociedade, nós demos a rede à empresa Hidroelétrica Xanxerê LTDA, atual Iguaçu Energia. Hoje, os transformadores, não sei como, acertaram a Prefeitura e a empresa. Havia um saldo em caixa, foram vendidas três cotas e tinha mensalidade para a manutenção. No saldo, era aplicado o juro do comércio. Naquela época, só em banco era a longo prazo, para a devolução. O valor foi depositado no antigo Banco Sul Brasileiro, em conta particular e pago em cheques no mesmo valor.

A diretoria recebeu críticas por alguns sócios, por ser contra doar a rede de um valor elevado e de mão beijada. Mas se a empresa não assumia a manutenção, acontecia igual à telefonia rural.

O filho Edemar citou muitas obras no geral, mas talvez esqueceu da maior obra urbana, que na campanha houve uma grande cobrança foi a mudança definitiva do Terminal Rodoviário. Após, no ano de 1980, o primeiro passo mudou o Centro para a rua Duque de Caxias, entre o antigo Colégio Imaculado Coração de Maria das Irmãs Franciscanas e o Posto Vicenzi, unido a um bar e restaurante, que existem até hoje. Era um lugar amplo, espaçoso e com bom estacionamento, era ponto de referência do Santo após o trabalho de expediente e meu também, à espera do ônibus.

Por fim da sua gestão, iniciou a obra mais importante, que deixou sua marca histórica, com recursos próprios da cidade. Uma certeza eu tenho, de um simples cidadão que não viajava de carro recém-inaugurado ao terminal de motoristas das empresas, disseram que era a melhor rodoviária da região, bem estruturada, em especial ao estacionamento ao embarque e desembarque.


Rech Mobile

Fundado em 06 de Maio de 2010

EDITOR-CHEFE
Marcos Schettini

Redação Chapecó

Rua São João, 72-D, Centro

Redação Xaxim

AV. Plínio Arlindo de Nês, 1105, Sala, 202, Centro