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Entrevista | Décio Lima diz não acreditar que Santa Catarina seja de direita e observa os catarinenses como progressistas

Por: Marcos Schettini
08/01/2020 17:10
Gustavo Bezerra/PT Décio Lima na tribuna do plenário da Câmara dos Deputados em 07 de junho de 2018 Décio Lima na tribuna do plenário da Câmara dos Deputados em 07 de junho de 2018

Ex-prefeito de Blumenau, deputado federal por três mandatos e candidato a governador de Santa Catarina em 2018, Décio Lima foi reeleito em outubro do ano passado para presidir o Partido dos Trabalhadores, consolidando-se como uma das maiores lideranças da sigla no Estado. Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Marcos Schettini, Décio se disse desapegado do poder e afirmou ser apaixonado pelo processo político: “o PT é uma causa”, conta.

Defendeu que as causas do PT transcendem os processos e acontecimentos da história, lembrando que não considera Santa Catarina um Estado de direita. “Temos um povo extremamente progressista, que quer construir um modelo político diferente”, afirmou. Ainda, criticou o comportamento do presidente Jair Bolsonaro e do governador Carlos Moisés. “Mesmice convencional com elementos da perversidade da política”, criticou Décio.

Sobre eleições municipais, ainda não definiu se disputará em Blumenau, mas garantiu que em Chapecó o PT tem todas condições de retomar o Executivo. Também falou acreditar na vitória de sua esposa Ana Paula Lima no Tribunal Superior Eleitoral, que ainda irá encerrar o julgamento sobre o caso que tirou o mandato dela na Câmara dos Deputados. Confira:

Marcos Schettini: O senhor se arrepende de ficar fora de Brasília pela disputa a governador?

Décio Lima: Absolutamente não! Nenhum arrependimento, porque sou uma pessoa de causa, não sou daqueles homens da vida pública que se apegam aos cargos e ao poder. O que me apaixona no processo político é estar a serviço de uma causa e o PT é uma causa. Eu cumpri um papel muito importante num momento muito difícil da conjuntura do país e de Santa Catarina, e tenho muito orgulho pelo despojamento que tive de praticamente renunciar a um mandato seguro de deputado federal para cumprir o papel de protagonizar um processo da história do Brasil e de Santa Catarina e tenho plena convicção da importância desse papel para aquele momento e também para o futuro do Brasil e principalmente no nosso estado.

Schettini: Que tipo de PT saiu da disputa nacional e em SC?

Décio Lima: Um PT que mostrou, principalmente para as elites brasileiras e de Santa Catarina, que nós não somos apenas um partido, nós somos uma expressão depositária da esperança de milhões de brasileiros, principalmente dos excluídos, dos sem-terra, dos sem-teto, dos desempregados, dos trabalhadores, enfim, das classes que sempre foram marginalizadas ao longo da história da construção do nosso partido. O PT que saiu das últimas eleições é um PT que mostrou a sua resiliência. Verga, mas nunca quebra, porque as causas transcendem os processos e os acontecimentos da história e da vida das pessoas. O PT saiu das últimas eleições no Brasil com a maior bancada de deputados federais, com maior número de governadores e continua sendo, com certeza, a alternativa de poder no nosso país para o próximo processo democrático. Acredito, portanto, que essa é a expressão que nos enche de entusiasmo: um PT que não foi vencido no obstante os ataques que foram deferidos contra nós como nenhum outro partido recebeu ao longo da história da República do nosso país. Um partido que foi atacado com armas cruéis, com mentiras, fake news e que se mostrou vigoroso, com capacidade de disputa em todos os processos em que se apresentou na vida democrática do nosso país. Continuamos lutando para ser, com certeza, aqueles que vão desenhar um novo país para o futuro da sociedade brasileira.

Schettini: O ex-presidente Lula da Silva já está livre como era o desafio do partido. E agora?

Décio Lima: O desafio na luta pela liberdade do presidente Lula sempre teve uma certeza empolgante e entusiasmante: a sua inocência. Não tínhamos a menor dúvida, como não temos de que, literalmente, o presidente Lula foi alvo de um ataque promovido pelas elites brasileiras, em consórcio com os interesses internacionais, que queriam trazer ao nossa país as velhas políticas da exclusão, da miséria, dos privilégios para alguns poucos e também, sobre tudo, atender os interesses internacionais. Olha a agenda que o Brasil está vivendo, a agenda da pilhagem, da entrega do patrimônio nacional e para isso tinham que atacar o presidente Lula. A luta ainda é vigorosa. Vamos lutar em todos os momentos do nosso processo político para provar a cada dia, a cada momento ao povo brasileiro a inocência do Lula e que ao tirarem-no da eleição de 2018, quanto mal foi provocado, principalmente à democracia e ao povo brasileiro.


Décio Lima com o ex-presidente Lula da Silva em ato do PT em Florianópolis, em março de 2018 (Foto: PT/SC)

Schettini: Quais são as bandeiras do PT para as eleições municipais?

Décio Lima: As eleições municipais deste ano terão para nós dois objetivos fundamentais. O primeiro é resgatarmos a musculatura política que os ataques dos quais fomos alvos nos últimos quatro anos, principalmente, que nos levaram nas eleições de 2016 à perda de espaços nas instituições de Santa Catarina e do Brasil, tanto nas Câmaras de Vereadores quanto nas prefeituras. Nós vamos buscar, portanto, retomar esses espaços. O segundo aspecto importante é que nós temos o compromisso de resgatar os valores da democracia contra o fascismo. Temos, portanto, uma pauta na defesa da democracia e para isso queremos construir aglutinações possíveis de todos os partidos que sempre se colocaram a favor da democracia.

Ainda, sobre as eleições municipais, o que nos traz também como pauta fundamental é a defesa intransigente das políticas públicas e fazer com que as obras humanas melhorem a vida das pessoas. Não podemos conviver, em nossas cidades, com feridas expostas de pessoas nas ruas, sem saúde e pessoas excluídas da educação. Que seja esse o grande debate para que nos municípios nós possamos ter uma proteção à qualidade de vida de todos. Vamos continuar imprimindo nosso modelo horizontalizado, participativo, democrático através do Orçamento Participativo e das bandeiras que são de conhecimento do povo brasileiro e que foram com sucesso implementadas em vários governos onde colocamos nossas digitais. Portanto, vamos aliar aos processos que estão hoje no país ao debate também nas eleições municipais.

Schettini: O ministro Sergio Moro é uma das 100 cabeças do mundo e está melhor que Jair Bolsonaro na avaliação popular. Quem é o adversário real do PT?

Décio Lima: O ministro Sergio Moro não é absolutamente uma das 100 cabeças do mundo, isso pode ser para uma revista financiada pelo sistema financeiro e outros processos em curso no mundo que suportam um Donald Trump e outras figuras que hoje deixam estarrecidas a humanidade. Pessoas cujos resultados já estão aí em curso, verdadeiro desastre para a política e para o pensamento humanista. O ministro Sergio Moro é uma pessoa que não reúne condições para debater com intelectualidade mediana, até com a academia a que ele pertence, o Judiciário, composto por formadores da consciência jurídica no nosso país. É um dos brasileiros que tem dificuldade inclusive de compreender os princípios constitucionais e sobre o papel das instituições. O ministro Sergio Moro é alguém que foi usado, manipulado e serviu ao ódio que foi construído nesse país, levando o Brasil a esse processo de deterioração de várias cadeias produtivas. Ele se utilizou do Judiciário, fato que levou o país a um processo de crise, de perversidade e, sobretudo, ferindo a democracia do país. Se utilizou do Judiciário para o protagonismo político e isso é algo criminoso. Moro haverá ainda, não na história, mas na vida contemporânea, enfrentar a verdadeira justiça para pagar pelos crimes que ele efetivamente cometeu e não são poucos. Seu maior crime foi o de se utilizar de uma instituição tão importante no modelo republicano, como o Judiciário, para o mal e, pior ainda, para atender a interesses apátridas. Não temos nenhum problema em fazer essas afirmações porque existem evidências e provas dos males que ele intencionalmente causou. Não acreditamos que ele, em 2022, irá protagonizar alguma ideia que cause ou traga esperança para o povo brasileiro, porque ele representa justamente a “anti-política”, a falta de política, a “anti-democracia” e sobretudo o “anti-nacionalismo”. Ele é um dos agentes dos processos visíveis de “entreguismo” do nosso país. Portanto, vamos chegar nas eleições de 2022 não preocupados com o Moro ou com qualquer adversário. Estaremos ocupados em dar esperança para o nosso povo, para tocar o coração da nossa gente e assim lutar para que este país volte a pertencer ao povo brasileiro.

Schettini: Luciane Carminatti, Pedro Uczai ou Cláudio Vignatti para prefeito de Chapecó? Qual agrega mais?

Décio Lima: Nós temos efetivamente um time extraordinário na cidade de Chapecó. Eu acredito que hoje reunimos todas as condições objetivas para retomar a Prefeitura de Chapecó, nós que já governamos a cidade com o companheiro José Fristch, depois o próprio companheiro Pedro Uczai que substituiu quando ele disputou o Governo do Estado. E é muito claro de que todas as experiências seguintes sequer são comparáveis com o modelo e ao tipo de governo que nós conseguimos realizar na cidade de Chapecó. Além disso, pela presença importante das lideranças da Luciane Carminatti, do Cláudio Vignatti, da Marcilei, do Pedro Uczai, enfim de todos e todas que estão com disposição de participar da disputa eleitoral na cidade. Eu quero dizer que é difícil a escolha porque se trata de quadros extraordinários, de uma verdadeira seleção e, portanto, nós achamos que esse debate terá que ser feito de forma democrática e interna, como é sempre e como sempre foram, aliás, as escolhas realizadas em nosso partido. Mas o importante é dizer que qualquer uma das lideranças que hoje se dispõe a participar estão à altura e certamente darão ao povo de Chapecó o melhor de si e que assim possamos fazer com que nossa Chapecó seja um verdadeiro paradigma na construção de um processo municipal a partir das eleições desse ano.

Schettini: Por que o PT não tem força no Sul, no Norte ou na Grande Florianópolis? O partido não precisa mudar?

Décio Lima: Isso não é verdade. Eu acredito que a questão da força é decorrente de vários erros do nosso pragmatismo ao longo da história. Veja, o PT já governou grande parte de Santa Catarina. O PT já governou Chapecó, Concórdia, São Miguel do Oeste, Dionísio Cerqueira, Blumenau, Rio do Sul, Gaspar, Indaial, Joinville, Criciúma, Florianópolis, inclusive, numa frente de esquerda. Portanto, nós do PT já tocamos praticamente todo o Estado com as digitais do nosso processo de luta. Também não acredito na afirmação de que Santa Catarina é um Estado de direita. SC é extremamente progressista, com um povo que quer construir um modelo diferente, que pretende fazer com que a gente interrompa a política convencional e eu acredito que, tanto nas eleições desse ano, como de 2022, nós vamos nos ser a alternativa real de poder e assim a gente, pela primeira vez, poderá aumentar de forma significativa o número de cidades que nós já governamos e estamos governando. Tenho convicção de que em 2022 nós seremos efetivamente uma alternativa de poder. Eu não tenho a menor dúvida de que esta construção depende muito da nossa capacidade de protagonizar, mas essa construção com condições objetivas colocadas em Santa Catarina.

Schettini: Qual sua avaliação do governador Carlos Moisés ao se distanciar do presidente Bolsonaro?

Décio Lima: Primeiro é importante dizer que tanto Moisés quanto Bolsonaro são expressão daquilo que há de pior na política brasileira e de Santa Catarina. O Bolsonaro não é nada de novo. Ele é uma expressão de direita, mas que faz parte de uma elite política que sempre se aglutinou, principalmente, no Congresso Nacional. O Bolsonaro tem 28 anos de mandato naquela Câmara, eu mesmo convivi 12 anos com ele, que representa aquilo que chamo de baixo clero, o fisiologismo da política, a política do toma lá dá cá. O Moisés a mesma coisa. O que mudou em Santa Catarina? Não mudou absolutamente nada. Cadê a nova política tão anunciada por ambos? Mudou absolutamente nada. São verdadeiros, no caso do Bolsonaro, um falastrão, uma pessoa que revela despreparo. O Moisés é a mesma coisa, um governo que não é sentido, um governo que não toca a vida do povo catarinense, um governo ausente, um governo que o povo catarinense nem sabe que existe ou quem é. Então, não vejo nenhuma diferença entre eles, acho que a mesmice e o convencional que estão governando tanto o país quanto Santa Catarina só que com elementos da perversidade da política, da maldade da política. Com elementos da falta visível de compromisso. Governam com ódio, com preconceito, governado com atos que são repugnantes do ponto de vista de valores do povo brasileiro e da humanidade. Portanto, não vejo nenhuma ou qualquer grande diferença entre eles.

Schettini: O MDB é um parceiro para 2020 e 2022?

Décio Lima: Acho que as discussões acerca de políticas de alianças devem começar de fato nos próximos meses. Eu acho que podem ser parceiros aqueles que querem defender a democracia, que querem fazer autocrítica, inclusive de erros que cometeram, acho que isso é importante dizer. São aquelas que querem construir uma pauta na defesa do patrimônio nacional, que não aderem esse entreguismo absurdo como está em curso no nosso país, como aconteceu com o pré-sal, e outros processos que estão aí numa velocidade inimaginável. Queremos a parceria com quem realmente quer fazer com que a política seja instrumento para melhorar a vida das pessoas, com foco principalmente nas políticas públicas, para efetivamente de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Queremos parceiros que não aceitam e não façam parte dessa essa onda truculenta do ódio e do fascismo em curso em todos os cantinhos do nosso país. Eu acho que a par desta agenda nós não vamos tratar a política de aliança sem preconceitos, mas não vamos abrir mão de valores que são imprescindíveis. Estamos dialogando já em Santa Catarina, numa frente com o PSOL, PDT e PCdoB, que são as primeiras aproximações do ponto de vista de conteúdo ideológico, que se aproximam. E vamos continuar realizando com muita responsabilidade esse debate para que possamos, principalmente, fazer com que as eleições municipais criem alternativa de defesa da democracia, de combate ao fascismo e possam construir um novo conteúdo para o Brasil em 2022. Mas a todo momento preocupado, sobretudo, com os princípios que pautaram sempre, principalmente, a nossa resistência nos últimos acontecimentos que o Brasil teve a partir do golpe de 2016.

Schettini: O senhor é candidato a prefeito em Blumenau?

Décio Lima: Sinceramente, ainda não sei se serei candidato a prefeito em Blumenau. Hoje te diria que, dos nomes do nosso partido, a probabilidade maior seria da Ana Paula protagonizar esse processo na cidade. Mas também em Blumenau, com muito entusiasmo, estamos construindo uma Frente Democrática com vários partidos e, por isso, ainda não podemos precipitar. Mas eu diria que nós vamos fazer um processo que possa empolgar o povo de Blumenau, assim como tivemos oportunidade, principalmente, nas eleições de 1996 e 2000, quando tivemos o privilégio e a honra de governar a cidade por oito anos. Queremos retomar, estamos entusiasmados e nesse momento debruçados, construindo uma boa chapa de candidatos a vereadores na cidade e vamos com força iniciar esse processo a partir desse mês, com a disposição que é fundamental para que a gente possa, com muita paixão, fazer o processo de disputa das eleições deste ano em Blumenau.

Schettini: Como avalia o prefeito Mário Hildebrandt?

Décio Lima: Como ex-prefeito que fui da cidade de Blumenau eu me permito, nesse momento, não avaliar. Eu não gosto de avaliar as pessoas que antes de mim ou depois de mim ocuparam o cargo de prefeito. Essa avaliação cabe ao povo de Blumenau. O que sei é que o povo de Blumenau está com muitas saudades dos tempos que nós governamos, porque aqueles tempos modificaram extraordinariamente o contexto urbano da cidade, a vida das pessoas, principalmente há um clamor sentido hoje nos bairros, na periferia e visivelmente na questão da autoestima do nosso povo. O que a gente presencia é que a cidade precisa resgatar sua autoestima com os valores que sempre foram próprios da cidade de Blumenau. Uma cidade que sempre teve a marca do cuidado com seu patrimônio, com suas praças, com suas ruas. Que sempre teve o cuidado de dizer que a cidade é sua, mas estes valores foram deixados para traz e nós precisamos resgatar. Portanto, eu acredito que essas eleições serão fundamentais, inclusive para dar a resposta da sua pergunta.

Schettini: Em que altura está o processo da ex-deputada Ana Paula Lima para ir a Brasília? O senhor acredita na conquista mandato dela?

Décio Lima: Primeiro, quero dizer que a Ana Paula e não só ela, mas o povo catarinense que votou nela fazendo dela uma das deputadas mais votadas de Santa Catarina, vítima de uma grande injustiça. Não se acha nenhuma razão no Direito material, nos fatos, em tudo que aconteceu para que ela não tivesse nesse momento cumprindo o seu papel de representar o povo catarinense no Congresso Nacional. Um voto na legenda, mas um voto na legenda dos quais foram retirados quase 500 votos injustificavelmente, sobre a pálida argumentação de que faltou um documento a ser entregue, um documento que não é exigido por lei, o próprio Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, em decisão de maioria, reconheceu o erro que foi cometido nesse episódio. E, lamentavelmente, nós estamos vivendo este processo de verdadeira exceção. Ainda aguardamos com entusiasmo, falta um voto minerva do Tribunal Superior Eleitoral e, como bom democrata, nunca vamos deixar de achar que a Justiça possa ser negada para corrigir as injustiças. Portanto, estamos aguardando ainda com muito entusiasmo a decisão, que tenho convicção que será favorável para reestabelecer esta agressão a democracia e dar a uma das mulheres catarinense, que honrou sempre sua vida pública pelos quatro mandatos que teve como deputada estadual, a representação democrática que recebeu para poder trabalhar pelo nosso Estado e trazer resultados para o povo catarinense.


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