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Entrevista | Deputada Carmen Zanotto pede atuação coletiva para que ápice do vírus não trave sistema de saúde

Por: Marcos Schettini
12/05/2020 16:18 - Atualizado em 12/05/2020 16:19
Divulgação

Atuando sempre em defesa da Saúde, a enfermeira e deputada federal Carmen Zanotto é reconhecida no Congresso Nacional por ter um dos mantados mais incisivos nas questões de saúde pública no Brasil. No momento que em se enfrenta o coronavírus, a parlamentar observa o SUS com muitos gargalos, mas afirma que muitos avanços foram registrados nos últimos tempos, embora haja uma diferença enorme na realidade das diversas regiões da federação.

Como coordenadora das ações do coronavírus no Sul, Carmen concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Marcos Schettini e apontou os inúmeros fatores que colocam o maior país da América Latina em um duro enfrentamento da pandemia. Ela ainda disse acreditar na fraternidade e compreensão da dificuldade do outro para superar esta guerra ao vírus, sensibilizando-se com os demais para que, com higiene e união, os brasileiros possam retomar o desenvolvimento do país. Confira:


Marcos Schettini: Qual a realidade do SUS no país e em SC?

Carmen Zanotto: O Sistema Único de Saúde é um dos melhores do mundo. Durante seus 31 anos de existência, muitos foram os seus avanços, porém ainda há muitos gargalos, como o subfinanciamento. Os recursos alocados para a saúde são insuficientes, nós não temos a revisão para alguns procedimentos há muitos anos. Com isso, temos dificuldades de acesso a exames de imagem, por exemplo, e a contratação de médicos especialistas. Os hospitais filantrópicos sofrem muito porque os recursos não são suficientes para atender toda a demanda. Mas, precisamos reconhecer que os avanços foram muitos, principalmente nas ações de prevenção com a ampliação de ofertas de serviços nos municípios e a regionalização da saúde da média e alta complexidade.


Schettini: O que esperar do número de mortes pela pandemia no Brasil?

Carmen: Não podemos focar no número de óbitos que vamos ter, mas sim nas ações que podemos fazer hoje para reduzir este número. As ações vão desde o nosso comportamento individual, respeitando o distanciamento de 1,5 metro, lavar as mãos, usar a máscara em público e as boas práticas de higiene. Assim como cada cidade, cada região vem se organizando para o acolhimento de todas as pessoas que estejam com síndrome gripal. Precisamos ter um atendimento humanizado, seja na Unidade de Saúde até aqueles que precisam ser internados nas UTIs. Somente o conjunto das ações irá reduzir o número de mortes.

Nosso desejo é que ninguém morresse por causa dessa pandemia que assola o mundo e o nosso país, mas lamentavelmente algumas regiões ainda têm muitos vazios assistenciais. O que está dificultando é a concentração de populações, conforme a geografia e as condições de vida de cada uma dessas regiões. Nossa grande preocupação é com as regiões de periferias, onde as acomodações dificultam, inclusive, ao acesso a água tratada e sabão para higienizar as mãos e roupas para poder dar mais segurança e, com isso, reduzir a disseminação muito rápida deste vírus.


Schettini: A Sra. é uma grande entendida do serviço de Saúde. O coronavírus revelou um país destruído nesta área?

Carmen: Como enfermeira de formação, eu atuei nas unidades hospitalares em Lages, fui enfermeira supervisora noturna, diretora do hospital, depois gestora municipal e estadual e agora aqui no parlamento, eu posso afirmar, novamente, que o SUS avançou muito, mas com certeza absoluta há peculiaridades regionais e o Brasil é um país continental. Em função disso, usando o estado do Amazonas como exemplo, em que os leitos de UTI estão basicamente na capital em Manaus, dificulta o socorro às pessoas que poderão estar com coronavírus. Nós discutimos os vazios assistenciais há muitos anos, por isso, inclusive, apresentei a Lei 12.732 que trata do prazo para o acesso ao tratamento do câncer, porque em algumas regiões do nosso país leva de 2 anos a 3 anos para o paciente acessar um serviço de câncer. Por isso, o Ministério tem obrigação de implantar o plano de expansão da radioterapia para garantir, pelo menos, um serviço de radioterapia em cada um dos estados brasileiros em especial nos estados que nós estamos sem esse serviço.

Santa Catarina, eu poderia dizer, que nessa área é um Estado privilegiado, nós temos uma boa distribuição geográfica dos serviços de quimioterapia, radioterapia e cirurgias oncológicas. Então, com certeza, também as diferenças per capita elas são muito acentuadas de região para região do país. Os valores da média e alta complexidade são muito díspares percapitamente porque algumas regiões não têm disponível todos os serviços de saúde. O coronavírus pode deixar como legado, a busca pelo investimento necessário para suprir as regiões menos favorecidas, um país com mais serviços de Saúde, em especial, na média e alta complexidade, mais leitos de UTI, mais cirurgiões, mais serviços de saúde oferecidos em diversas regiões.


Schettini: A pobreza ficou revelada na pandemia. É um caminho para diminuir as desigualdades?

Carmen: O país tem as desigualdades sociais há muitos anos, algumas políticas públicas têm procurado reduzir essas desigualdades. Com certeza, mais uma vez, são as regiões mais pobres do país que poderão ter o maior número de óbitos. Eu acredito sim que todos nós, homens e mulheres, vamos sair melhores desse processo com mais senso de unidade, de fraternidade e de compreensão da dificuldade do outro.


Schettini: Que país vai sair depois desta pandemia?

Carmen: Espero que assim, como cada um de nós individualmente, apesar de todas as dificuldades, de todos os conflitos. Que nós possamos sair melhores dessa pandemia e o país como um todo também. Fortalecendo a unidade na busca de caminhos no coletivo para que possamos restabelecer o crescimento e o desenvolvimento do país, gerando mais empregos e renda para suprir todos os períodos de dificuldade.


Schettini: O Congresso foi atacado pelo presidente. Por que Bolsonaro gosta tanto de brigar?

Carmen: Não sei porque o Presidente tem atacado o Congresso como você está afirmando na pergunta. Nós aqui no Congresso temos procurado atender todas as iniciativas legislativas que chegam nesta Casa. Assim como também todo o processo legislativo construído por nós para enfrentamento dessa pandemia. Esse não é o momento de conflito, esse é um momento de unidade e nós precisamos buscar essa união para que possamos reduzir o sofrimento da população brasileira em todos os setores. Desde o atendimento à saúde até minimizar os danos sociais e econômicos.


Schettini: O atual ministro e Luiz Mandetta estão certos e errados em que direção?

Carmen: Nós estamos trabalhando com um inimigo comum, um vírus que a disseminação é muito rápida. Erros e acertos todos teremos, sem sombra de dúvida, mas acredito que todos estejam trabalhando na busca de acertar. O nosso país está acompanhando o que aconteceu no mundo, buscando a partir das experiências, por exemplo, na China, os bons exemplos para implantar no país. Se a quarentena e o distanciamento foram todos 100% corretos ou não, só o tempo nos dirá. Mas com certeza nós não estamos com toda a rede de saúde preparada para o enfrentamento e o atendimento de um grande número de pessoas no mesmo momento.

E por alguns motivos, primeiro porque é uma pandemia e com isso os insumos para o enfrentamento da epidemia como os equipamentos de proteção individual são absolutamente insuficiente no país. Além, da nossa dificuldade de ampliar as vagas de UTI extras, porque não podemos internar um paciente com Covid-19 com outros pacientes com outras patologias, eles precisam ficar isolados. São leitos extras que estão sendo instalados e nós precisamos ter acesso aos respiradores, pois são fundamentais para os casos graves e nós não temos em número suficiente no país.


Schettini: Por que os Estados estão afrouxando o isolamento? Não é agora o perigo da doença?

Carmen: A experiência brasileira nesses primeiros dias de pandemia tem reafirmado que o nosso país é um país continental e o comportamento do vírus em cada uma das regiões não deverá acontecer no mesmo momento e com a mesma intensidade em todas as regiões brasileiras. Por exemplo, nós vivemos no Sul e com a chegada do inverno não sabemos como será para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.

As definições de quais os setores podem estar atuando e quais setores não podem, se será mantido um isolamento mais rígido ou mais flexível, depende da situação de cada uma das unidades da federação e da avaliação dos governadores junto com os prefeitos, secretários de estado e municipais de saúde e o setor produtivo. Não é uma decisão fácil, mas sempre que ela acontecer de forma coletiva ela pode ter mais sucesso. Porém, não adianta ter uma estrutura na empresa, por exemplo, que disponibiliza todo o equipamento necessário que os trabalhadores precisam, como água e sabão, álcool gel, higienização dos ambientes e quando nós vamos para os nossos domicílios nós não respeitamos o distanciamento e se os ônibus coletivos estão lotados. Então é um conjunto de ações, que vão desde nossa atuação individual até como nos comportamos no coletivo que irá minimizar os efeitos da pandemia e o número de óbitos.

Schettini: Quem vai morrer e viver é uma sentença de incompetência do sistema de saúde?

Carmen: Quem vai viver e quem vai morrer não é uma sentença de incompetência do sistema de saúde. Precisamos olhar o mundo e entender o que poderá acontecer no país, nós temos experiências de países muito desenvolvidos que enfrentaram e estão enfrentando as mesmas dificuldades que nós poderemos enfrentar, que é não termos capacidade instalada para atendimento de toda a demanda que porventura possa precisar de leitos de internamento e leitos de UTI no mesmo momento. Por isso, precisamos cuidar muito para não ter um crescimento rápido e com isso atingimos o ápice da crise em poucos dias. Para não termos unidades hospitalares, tanto públicas como privadas 100% ocupadas e óbitos.

Nós não temos uma vacina, não temos um medicamento seguro ainda, ou um conjunto de medicamentos para tratar o paciente e que vai reduzir os internamentos hospitalares. Então não é incompetência e não dá para tratarmos como uma incompetência, tem que ser tratado como uma situação, uma pandemia mundial com reflexos gigantescos na vida das pessoas.

E esses reflexos são desde óbito de familiares, a perda de emprego ou a necessidade de fechar um estabelecimento, porque não deram conta da sua manutenção em função da crise, que também vem acompanhada com a crise na área da saúde e na área econômica. Todos nós desejamos ter a estrutura necessária para atender todos os pacientes, mas o que temos visto, é que nem no mundo e nem no Brasil tem. Por isso, que eu repito, para não tenhamos um elevado número de óbitos e para que não tenhamos aqui o que aconteceu nos outros países, onde a equipe médica precise escolher entre quem vai ficar com o respirador ou quem não vai. É o momento mais difícil de uma equipe dentro de uma UTI. Para que isso não aconteça vai depender muito da nossa atuação individualmente, da atuação do coletivo da sociedade e das estruturas que estão sendo implementadas para atender esses pacientes.

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