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Entrevista | A pandemia revela a enorme desigualdade sempre existente no Brasil, afirma Luciane Carminatti

Por: Marcos Schettini
17/07/2020 12:08 - Atualizado em 17/07/2020 12:11
Rodolfo Espínola/Agência AL

Uma das maiores lideranças educacionais de Santa Catarina, a professora e deputada estadual Luciane Carminatti tem sua vida política focada na Educação, desde seu primeiro mandato como vereadora em Chapecó há 20 anos.

Nome respeitado na Assembleia Legislativa e dentro do Partido dos Trabalhadores, a parlamentar é uma crítica ferrenha do governo de Jair Bolsonaro, se opondo aos métodos utilizados no Ministério da Educação e de enfrentamento à pandemia de coronavírus.

Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Marcos Schettini, a deputada comentou sobre a escola sem partido, um projeto que ela taxa com viés ultraconservador e atrasado, idealizado pela lógica dos mesmos defensores do terraplanismo. Ainda, ela fala sobre os erros e acertos do PT, Carlos Moisés e Daniela Reinehr, eleições municipais e futuro político. Confira:


Marcos Schettini: Como professora, a Sra. observa o Ministério da Educação em conflito?

Luciane Carminatti: O Ministério da Educação, agora recentemente, teve a nomeação na última sexta-feira, dia 10 de julho. É um dos maiores ministérios, que tem um quarto do orçamento e que atinge praticamente todas as famílias brasileiras, isso porque nós temos em torno de 25% da população que está de uma forma ou outra acompanhando com filhos ou com familiares a educação. Então, o Ministério da Educação, com certeza, é um dos mais importantes. Esse governo é uma tragédia do ponto de vista educacional, político e sanitário. Um exemplo disso é que chegamos a 75 mil mortes pela Covid-19 e até agora o MEC fica em brigas desnecessárias e ideológicas, perseguindo professores, universidades públicas, redes de ensino, criando fantasias, como por exemplo: maconha nas universidades.

Por muitas vezes, larga boatos e as pessoas que são sérias, decentes, tem que correr atrás para desmentir as mentiras catastróficas do Ministério da Educação. Ao invés do MEC se guiar por aquilo que é resultado do acúmulo da sociedade brasileira, como é o Plano Nacional da Educação, que tem metas para serem cumpridas até 2024, nós temos o financiamento da educação, o Fundeb, que vence em dezembro, estamos todos preocupados, porque o MEC não entendeu ainda que as Assembleias Legislativas já estão trabalhando, tratando da LDO, a Lei de Diretrizes Orçamentarias, e nem sequer nós temos um padrão de orçamento para o ano que vem.

Em meio a pandemia, o MEC não consegue propor nada. O que nós temos de avanço na educação é o resultado do compromisso dos educadores, dos gestores e de parlamentares, porque se dependesse do Ministério da Educação nós estamos andando para trás. Nós não estamos encontrando a luz do conhecimento, nós estamos andando para o mito da caverna, ou seja, da ignorância, do preconceito, do autoritarismo e mais do que isso, a negação da ciência.


Schettini: O que é a chamada escola sem partido?

Luciane Carminatti: A escola sem partido é uma falácia, ela foi criada com a intenção de dizer que a escola é um lugar de doutrinação ideológica de partido político. No entanto, todos os adeptos da escola sem partido são sujeitos ligados ao posicionamento ultrarreacionário, ou seja, eles não têm um campo de atuação democrática, eles têm um campo de atuação bem posicionado, ultraconservador, atrasado e que coloca a escola, como se na escola fosse o conhecimento tratado como uma versão.

Para mim, a escola é plural, é o espaço do diálogo, da diversidade, é o espaço da construção do respeito a partir das diferenças de entendimento. A escola sem partido quer pregar algo que não é a questão mais importante, o mais importante é que nós temos escolas precárias, nós temos necessidade de qualificar os profissionais da educação para que cada vez tenham uma aula melhor, tenham avanços do ponto de vista da aprendizagem dos seus alunos, nós temos um quarto dos alunos que não estão no ensino médio, nós temos desafios agora percebidos ainda mais, como é a questão da tecnologia, nós temos um plano de carreira, extremamente precário para os professores, isto é significativo, isto é o que atinge a maioria dos milhões de estudantes.

Se nós quisermos melhorar a qualidade da educação e fazer com que o Brasil tenha índices melhores do ponto de vista de indicadores educacionais, o caminho não é perseguir professor e ficar torturando as posições políticas que os professores tem, o caminho é a formação pedagógica, é a construção da ciência e do conhecimento. Justamente quem é a da escola sem partido, são os que negam a ciência, são os que estão por traz de toda uma construção do ponto de vista da lógica terraplanista, os que negam os avanços do conhecimento científico. Por isso, reafirmo que a escola sem partido é uma falácia, na verdade é a escola de um único partido. E quero dizer que todos os educadores sabem, que a escola não é um palco de partido político, mas é um palco sim de discussões sobre o papel do conhecimento, o papel da aprendizagem e a função social da escola. Também quero dizer em relação a isto que a escola sem partido não existe do ponto de vista institucional, é algo inventado por um grupo que questiona a atuação da escola e não vai para o debate com os educadores, mas fica na periferia apontando o dedo e metralhando professor.


Schettini: O PT se redimiu?

Luciane Carminatti: O Partido dos Trabalhadores é um partido como todos os demais, que é feito de pessoas, de gente. Gente que acerta, gente que erra. Ninguém é candidato para ser santidade ou demônios, não temos santos ou demônios, nós temos pessoas, que nas suas contradições constroem a democracia ou não constroem a democracia. Isso vale para todos os partidos, o PT não só assume que seu governo teve inúmeros feitos e realizações, como também reconhece que teve muitos aspectos que poderia e deveria ter sido diferente, como cabe para todos os governantes que tem sensibilidade, que tem humildade para reconhecer.

Mas eu quero reafirmar, quem precisa fazer autocrítica é quem tirou uma presidenta sem ter cometido qualquer tipo de crime que fizesse com que ela perdesse o mandato, tanto é que há um consenso na sociedade que a presidenta não cometeu crime de improbidade. Então, primeiro esta autocrítica eu exijo. Alguns já estão fazendo, alguns setores da mídia e da própria política. E também é preciso fazer autocrítica quem ajudou a eleger este sujeito que se chama presidente da República, que é a maior autoridade, mas que despreza a vida, que não une o país, que não sai do palanque, que não enxerga a riqueza que é construir um país do tamanho do nosso Brasil consultando as pessoas, ouvindo, ainda mais agora na pandemia, chamando prefeitos e governadores para construir uma grande união para salvar vidas. Então, cadê a autocrítica de quem ajudou a eleger este sujeito que comete crimes todos os dias.


Schettini: Qual é a visão do eleitor de agora para aquele de 2018?

Luciane Carminatti: Eu espero que o eleitor de hoje vote com mais consciência do que quando votou em 2018, porque tudo aquilo que falávamos, de uma eleição pautada em fake news, de uma eleição que não teve debate, porque o presidente fugiu dos debates, de uma eleição que criou fantasias e mentiras, como foi a história do kit gay, da “mamadeira de piroca”, só pode dar nisso.

Então, eu espero que o eleitor hoje perceba que nem sempre mudar de qualquer jeito é o melhor, mas que a mudança tem que vir sustentada em propostas, em diálogo, em competência, em histórico. Penso que é uma lição e democracia é isto, é o exercício diário e permanente de reflexão sobre as nossas escolhas, às vezes a gente acerta nas escolhas e às vezes a gente erra. Isto é a democracia.

Schettini: Carlos Moisés e Daniela Reinehr são uma mostra daquela eleição?

Luciane Carminatti: Eu acredito que o eleitor catarinense quando escolheu esta chapa fez uma escolha de ruptura, no sentido de que em toda a história de Santa Catarina, nós tivemos alternância de poder, no entanto uma alternância já prevista e esta foi uma alternância não prevista. Eu acredito que a maioria da população catarinense não conhecia a vice e o governador, conheceram depois de eleitos. Isso nos prova que não basta renovar, por renovar. A renovação sem trazer a experiência, sem trazer sustentação política, capacidade de diálogo e também respeito aos poderes, é uma renovação fadada ao fracasso.

Eu lamento muito porque penso que Santa Catarina poderia trazer uma grande novidade, se tivesse eleito uma mulher, a primeira mulher eleita, mas se tivesse também eleito um projeto de Estado. São pessoas que se conheceram na eleição, que montaram um governo sem identidade e que tem muita dificuldade de diálogo com as regiões, com a Alesc, muita dificuldade de construção de um projeto ouvindo as pessoas, as entidades, as instituições e acredito que isto não é positivo, tendo em vista o resultado que temos até agora.


Schettini: Qual será o debate eleitoral das municipais?

Luciane Carminatti: Na minha avaliação, ele se cruza entre os desafios dos municípios, no momento em que as cidades estão tendo bastante dificuldades devido à pandemia, respostas que, muitas vezes, não estão nos municípios, mas que dependem de decisões maiores, no entanto os prefeitos serão avaliados por isso. Um outro desafio é com relação aos debates nacionais, problema do desemprego que tende a aumentar, eu acredito que este é um tema que deve entrar nas eleições, como os prefeitos vão lidar com a geração de novos empregos e oportunidades.

O crescimento das demandas na área da saúde e assistência social, o aumento do número de alunos da rede pública, são todas áreas afetadas e muito pela pandemia e a tendência é que este debate aflore nas campanhas eleitorais deste ano. Eu não tenho dúvida que o debate com relação aos rumos que o país está tomando, a ausência de uma gestão nacional, de um presidente que respira democracia, que chame todos para uma união, este atrelamento político voltando a figura do centrão, tudo isso entra no debate das eleições deste ano, porque na verdade as consequências estão em cada município.


Schettini: O que o cidadão quer além de transparência e honestidade?

Luciane Carminatti: Honestidade e transparência é obrigação, não é plataforma de governo. Eu quero ver quem se propõe a não ser honesto que vai quer eleito ou ser contra a transparência que quer ser eleito. Acho que isso não elege prefeito ou vereador, a não ser aqueles eleitores que ficam somente nestas pautas, que são pautas que estão garantidas na constituição e tem mecanismos de controle e fiscalização.

O que precisamos de fato exigir é o debate, o debate público de como é que vamos aumentar as vagas sem creche, o que se pensa da infraestrutura, do saneamento, da taxa de esgoto. O que se pensa em relação aos investimentos na área da saúde, nós queremos um SUS mais forte ou um SUS privatizado? Basta ver agora, por exemplo, na pandemia se nós não tivéssemos o SUS o que seria dos milhões de brasileiros, quem teria condições de ter um atendimento particular? Então, acho que estes temas os eleitores vão olhar com muito carinho para escolher quem tem capacidade, assim pelo menos eu espero.

Schettini: Qual é o destino da Sra. na vida pública?

Luciane Carminatti: Eu não gosto dos degraus, eu vou fazer isso para fazer aquilo. Eu nunca coloquei degraus na minha vida do ponto de vista de carreira política, de trampolim. Quando eu fui vereadora eleita no ano de 2000, o meu objetivo era terminar bem o mandato em 2004. Depois outros desafios foram chegando. Eu sempre tenho um olhar, que é um olhar de que fazer bem o trabalho para o qual eu fui eleita e me comprometer com este momento.

O compromisso do parlamentar é com o seu momento, com aquele momento onde ele está. O que vem pela frente, isto quem vai dizer é o resultado do nosso trabalho. Não gosto da ideia de ser eleita e já ficar dizendo que eu tenho objetivos de crescer ou assumir outros cargos. Penso que isto é um desrespeito ao eleitor que quer que a gente mostre muito trabalho pelo qual a gente foi eleita.


Schettini: A Sra. vê a pandemia como revelação da miséria política, econômica e intelectual?

Luciane Carminatti: A pandemia não cria desigualdade, a pandemia não cria crise política. A pandemia revela a desigualdade existente, ela faz aflorar. O Brasil era o país mais concentrador de renda antes da pandemia, isto não veio com a pandemia. Antes da pandemia, nós já enfrentávamos uma desigualdade social extremamente cruel e continua agora. No entanto, a pandemia revelou a incapacidade do presidente de fazer uma gestão política e sanitária adequada. O presidente que eu esperava, era o que conseguisse olhar para a sociedade, se portar com respeito e dizer: vamos todos nos unir agora, prefeitos, governadores, autoridades sanitárias, as pessoas das diferentes agremiações políticas e vamos enfrentar o vírus juntos com o uso de máscaras, com o isolamento social, com os cuidados e a proteção necessária.

Se ele tivesse tido esta postura desde o início, quem sabe hoje o Brasil não teria certamente os mais de 75 mil brasileiros mortos e mais todos os que virão. E o Brasil certamente não estaria numa condição de ser um dos países que mais deve demorar para sair do isolamento social. A postura do presidente ajuda a quebrar empresas, a diminuir empregos e a matar vidas. É esta postura autoritária, anticivilizatória, uma postura que não mostra o tamanho da autoridade que tem um presidente da República.

Uma postura, eu diria, extremamente desagregadora, ele está mais preocupado em salvar os três filhos dele, das ilicitudes e crimes que cometeram, do que em salvar o país da pandemia. Então, é uma tragédia atrás da outra, estamos há mais de dois meses sem ministro da Saúde enfrentando aquilo que já é maior do que a Guerra do Paraguai, que foi uma das guerras que mais matou brasileiros e mais deixou marcas doloridas para a nossa nação. Ou seja, nós estamos vivendo uma guerra e o presidente da República está preocupado em salvar o coro dos seus três filhos. É lamentável, é trágico e é de uma irresponsabilidade tamanha.

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