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Entrevista | Postura de Moisés tem prejudicado Santa Catarina, afirma empresário Marcello Petrelli

Por: Marcos Schettini
22/07/2020 16:02
Solon Soares/Agência AL

Dono de um dos maiores conglomerados de comunicação de Santa Catarina, Marcello Petrelli comanda o Grupo ND dando eco às iniciativas que contribuem com o avanço social e econômico do Estado.

Respeitado por ter uma linha editorial sensata e embasada nos ensinamentos do fundador Mário Petrelli, os meios de comunicação liderados por Marcello dão significativas contribuições ao debate estadual nas questões políticas e sanitárias, principalmente neste momento de pandemia.

Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Marcos Schettini, o empresário deu um panorama real do cenário brasileiro, se posicionou contra várias bandeiras das elites políticas e, novamente, se diz favorável à unificação das eleições. Falou sobre a necessidade de reinvenção dos veículos de comunicação, comentou sobre o Governo Bolsonaro e taxou o governador Carlos Moisés com postura prejudicial para Santa Catarina. Confira:


Marcos Schettini: O senhor defendeu a eleição unificada para 2022 por quais motivos?

Marcello Petrelli: Sim, defendi e ainda defendo. É preciso unificar o calendário eleitoral, reorganizando os mandatos, para que os brasileiros não sejam mais reféns dos políticos. É preciso acabar com eleições a cada dois anos, que paralisam o país, e com a possibilidade de reeleição. Este é um mecanismo que os políticos criaram para se perpetuarem no poder, mandato após mandato. Digo que a democracia existe no país, mas não plenamente. Pelo menos enquanto os políticos continuarem a ter o poder exagerado que tem, mandando na Nação. Publicamos o editorial “É hora de mudar o Brasil” para mostrar este esquema. As eleições atendem aos interesses político-eleitorais dos políticos. Para eles não faltam recursos. Partidos e candidatos são financiados com verba pública, com dinheiro pago pelos contribuintes, o que é uma distorção. Criaram mecanismos de financiamento para si mesmos, o Fundo Partidário e o Fundo Eleitoral. Numa conta rasa, juntos estes fundos somaram R$ 25 bilhões nos últimos dez anos, o maior esquema de uso do dinheiro público já visto no mundo.

Com este dinheiro pagam assessores, marqueteiros, pesquisas, jantares e festas, passagens aéreas e até garotas de programas, despesas que são bancadas pelo contribuinte, basta apresentar uma nota fiscal. O mais grave é que estes recursos, por conta da legislação eleitoral, estarão concentrados nas mãos de seis ou sete presidentes de partidos nacionais, que decidirão como distribuir este dinheiro, quem vão apoiar ou eleger, dificultando o surgimento de novas lideranças. O Brasil não sustenta mais este modelo de eleições. Não há razão para pleitos a cada dois anos. Defendemos a unificação do calendário eleitoral com eleições gerais, mesmo que para isto seja necessário rever mandatos, com a prorrogação ou redução de alguns, mediante uma reforma eleitoral. Esta proposta depende dos políticos, mas eles não abrem mão de seus privilégios e desejam manter o “status quo”, mesmo contra o desejo da maioria dos brasileiros.

Schettini: Quais benefícios diretos a mudança do calendário eleitoral traria para o Brasil?

Petrelli: O benefício imediato seria a economia de R$ 2 bilhões do Fundo Eleitoral garantido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Estes recursos poderiam ser investidos em estrutura para a saúde pública, hoje o principal gargalo no enfrentamento da pandemia. No futuro, surgirão outros vírus e outras necessidades de aporte de recursos. Outro benefício seria propor, já para 2022, projeto de reforma eleitoral para unificar os mandatos e acabar com a reeleição. Para a próxima eleição, daqui a dois anos, já teríamos um novo modelo eleitoral, mais justo e menos oneroso à sociedade. Com as regras atuais, os prefeitos eleitos em 2020 terão direito à reeleição. Desta forma, só teríamos a possibilidade de acabar com este círculo vicioso, que faz mal ao país, em 2028.


Schettini: Quais os problemas impedem o Brasil de se transformar uma sociedade mais equilibrada e justa?

Petrelli: Há uma crença que o povo brasileiro não sabe votar, que cada povo tem o governo que merece, que os políticos são o retrato da sociedade. Isto é uma falácia, uma mentira, que deve ser desconstruída. É uma narrativa que só interessa aos detentores do poder. O que ocorre é justamente o contrário. Os eleitores votaram por mudanças, basta ver que renovaram grande parte do Congresso Nacional. Apostaram na nova política, na renovação. Mas o que ocorreu? Os novos eleitos traíram a confiança dos eleitores. Não abriram mão de nenhum privilégio, mantiveram todos os “penduricalhos” como o auxílio-mudança, as verbas indenizatórias, os tratamentos médicos ilimitados, os gabinetes lotados de assessores, enfim, todos os privilégios. A culpa, nesse caso, não foi dos eleitores que não souberam votar, mas dos políticos que foram eleitos. Chegaram ao poder com discurso da nova política, mas na prática, mantiveram as benesses da velha política. Agora, durante a pandemia, não fizeram nenhum gesto, não cortaram seus salários ou reduziram suas despesas, não demonstraram solidariedade com a maioria da população que sofre os impactos do coronavírus.


Schettini: Qual a responsabilidade da classe política e dos dirigentes da Nação para mudar este quadro?

Petrelli: Existe uma elite que domina a política, os poderes e as classes empresariais, a quem interessa manter o sistema, com benefícios e privilégios. Uma elite que se serve do Estado, que usufrui dos recursos e usa o seu poder para que este mecanismo continue a seu serviço. Esta elite não faz bem ao país, porque não tem espírito público, usa o poder para conquistar mais poder. O exemplo não vem de cima, das classes mais privilegiadas. Como exigir valores diferentes para o cidadão comum se hoje há corrupção nos altos escalões e nada acontece. O recado que nossos dirigentes dão é que vale a pena roubar no Brasil. Não votaram a prisão em segunda instância, permitiram colocar em liberdade criminosos condenados e julgados. Os principais condenados na Lava-Jato estão soltos, inclusive um ex-presidente. Que recado estamos passando para as próximas gerações? De que o crime compensa, basta ter bons advogados?

A população não tem referências nos grandes líderes, bons exemplos, que hoje são raros. Vivemos um período de insegurança jurídica absoluta, com leis que não valem para todos. O que precisamos é construirmos uma nação com leis mais rígidas – e que sejam cumpridas. Por exemplo, tolerância zero para delitos com o dinheiro público, para que sejam aplicadas rapidamente e com severidade, inibindo a corrupção. Novo modelo para o serviço público, com o fim da estabilidade e privilégios, com salários justos, porém, com produtividade e meritocracia, porque estes brasileiros são privilegiados em relação aos demais trabalhadores. Só assim podemos ter um futuro melhor como sociedade.


Schettini: O projeto das fake news que tramita no Congresso é um caminho de censura ou para dar veracidade às notícias?

Petrelli: Este projeto tem um claro viés político, porque determinados poderes não conseguem conviver com a crítica e a liberdade de opinião. A tentativa de controlar as redes sociais esbarra numa linha tênue entre liberdade de expressão e censura. É um projeto que passou rapidamente pelo Senado, mas que requer uma análise e um debate mais profundo com a sociedade na Câmara dos Deputados. A verdade é que o meio digital virou terra de ninguém, produzindo efeitos danosos para muitos que são atacados, de forma anônima, pelas redes sociais sem qualquer punição. A sociedade pós-moderna tem de encontrar uma forma de haver regras, avanços, para que este meio tão importante reflita a verdade e o respeito que todo cidadão merece. Já temos leis que punem o delito de opinião, que podem ser utilizados, mas a Justiça não acompanha a velocidade do meio digital.


Schettini: Como avalia a gestão do presidente Bolsonaro? Não acha que ele deveria falar menos e focar mais nos assuntos de Estado?

Petrelli: A eleição do presidente Bolsonaro foi um processo de ruptura com um modelo que estava apodrecido, que quebrou o Brasil. Herdou um país em ruínas, não apenas no aspecto econômico, mas do ponto de vista social, moral e ético. Sua eleição trouxe à tona verdade que estavam encobertas, tanto no campo da corrupção como da gestão pública, conduzida até então de forma irresponsável. Esta mudança esbarra no poder das elites que dominam o país, principalmente da casta política que deseja manter o modelo em seu benefício. Porém, o presidente Bolsonaro se elegeu com o apoio da maioria dos brasileiros e com a proposta de mudanças.

Por temperamento, o presidente costuma ser franco e assertivo, muitas vezes criando problemas com suas falas. Acredito que ao expor seu pensamento, de forma clara, também contribuiu para que os brasileiros conhecessem certas verdades. O desgaste é inevitável porque seu discurso contraria muitos interesses e fortalece a oposição, que começa dentro do Congresso Nacional e encontra eco nos demais poderes, como o STF. A par do debate, o governo federal tem feito entregas fundamentais para o país, quer na área econômica ou de infraestrutura, que passam despercebidas porque a grande imprensa, que tem uma visão esquerdista, está mais preocupada com os deslizes vocabulares de Bolsonaro do que com as realizações de seu governo.

Presidente Bolsonaro já fez as duas mais importantes entregas que o Brasil precisava, tirar do Poder aquela estrutura política que tinha se apossado do Brasil do para roubar e implantar uma equipe de governo honesta, trabalhadora e técnica.

Schettini: Esta guerra entre às instituições, entre os poderes Legislativo e Judiciário não enfraquecem a democracia?

Petrelli: A nossa democracia se baseia na independência e harmonia dos poderes. Hoje isso não acontece por conta de algumas posturas dentro do Congresso Nacional e do próprio STF. Há uma interferência excessiva em relação ao presidente Bolsonaro, uma tentativa de criar amarras que o impedem de governar. A sociedade já percebeu isto e está cobrando, nas ruas em forma de passeatas e protestos, que deixem o presidente trabalhar. Todo o ataque deliberado é prejudicial, mas apontar falhas e excessos é saudável para a democracia. É um debate legítimo entre os poderes que ajudam a construir a nossa sociedade. O radicalismo, de ambos os lados, não ajuda o país. É preciso que surja na política nacional um líder pacificador, capaz de apaziguar os ânimos, criar clima para o enfrentamento das grandes questões nacionais, independentemente de ideologias ou cores partidárias.


Schettini: Como enxerga o futuro da comunicação de massa em relação ao mundo digital?

Petrelli: Por atingir grande público e não custar nada, a comunicação de massa continuará exercendo o seu papel importante na sociedade como fonte confiável de informação e de entretenimento. As emissoras de televisão e rádio deram nesta pandemia um exemplo do seu papel social, insubstituível. São estes meios que falam, diariamente, para milhões de pessoas. Estes veículos ajudam a construir a identidade social de um povo, quando este papel é exercido com a finalidade de prestar serviço em favor da cidadania. Hoje os veículos têm um grande desafio pela frente que é se reinventar em virtude do meio digital.

É preciso construir um novo modelo de negócios para que os veículos de massa possam se manter consolidados junto de seus públicos. Este novo modelo, que garantirá sobrevida aos veículos, passam pela revisão dos custos das empresas e pela agilidade e criatividade de suas equipes. A questão da tecnologia tem de ser levada em conta, já que hoje os recursos são escassos. É preciso estar presente em todas as plataformas para ampliar a audiência e manter a qualidade do seu conteúdo, o que é fundamental. Para nós, do Grupo ND, que estamos há 35 anos fazendo jornalismo regional, já temos no nosso DNA a cultura do localismo. Estamos presentes com equipes próprias nas principais cidades do Estado, interagindo com a comunidade e dando voz às suas demandas.


Schettini: Quais são as responsabilidades de um grupo regional de comunicação para ajudar a construir a cidadania?

Petrelli: A imprensa sempre foi considerada o quarto poder, o que é uma visão distorcida do seu papel. Nós preferimos dizer que nossa maior missão é prestar serviço, estar ao lado da sociedade como parceiro para as boas pautas. Nestas mais de três décadas de existência, o Grupo ND tem muito claro esta política de ser um veículo proativo, em favor das comunidades onde atua. Ajudamos a construir a cidadania por meio das bandeiras editorias que levantamos, quando denunciamos problemas e buscamos soluções, junto com o poder público. Fazemos reportagens de grande alcance social, como é o caso da pandemia e das eleições ou em defesa de vacinações em massa, do estímulo ao empreendedorismo, do reconhecimento de lideranças e empresas que fazem a diferença na sociedade. O poder de um veículo também deve ser exercido para mudar comportamentos e estimular o desenvolvimento social e econômico do nosso Estado. É desta forma que podemos contribuir, despertando o espírito público dos catarinenses.


Schettini: Como o senhor vê Santa Catarina, que sempre foi um Estado de excelência? Acha que o governo atual tem feito a sua parte?

Petrelli: O atual governo não conseguiu estabelecer este diálogo com a sociedade. Desde que assumiu o governador Carlos Moisés da Silva não interagiu com segmentos importantes como as classes produtoras, com os poderes e com a própria imprensa. Existe um claro distanciamento entre o governo e a sociedade. Houve uma quebra de uma tradição de governantes que sempre foram abertos ao diálogo e com presença efetiva nas regiões. Por estilo próprio, o atual chefe do Executivo tentou imprimir o seu ritmo de governo, que não é o qual estávamos acostumados. Deu as costas para a imprensa, preferiu a Casa d’Agronômica ao Centro Administrativo, não dialogou com vereadores, prefeitos, deputados e com os poderes.

Esta postura tem prejudicado Santa Catarina, sem contar da operação desastrada para a compra dos respiradores chineses que custaram R$ 33 milhões e foram pagos sem qualquer garantia, numa demonstração de total descontrole da máquina pública. Pela primeira vez este escândalo colocou nosso Estado no mapa da corrupção, o que jamais aconteceu antes. Santa Catarina sempre foi um Estado de excelência, com indicadores positivos em algumas áreas comparados a países europeus. Nossos dirigentes, nas últimas décadas, fizeram parte de um contexto de grupos políticos e se prepararam para governar. Os catarinenses escolheram renovar, experimentar algo novo e diferente, embalados pela onda Bolsonaro. Mas o que se vê hoje é um governo sem rumo, sem plano ou projeto para manter a excelência do nosso Estado, uma conquista de muitas décadas que está sendo desperdiçada e prejudicada.


Schettini: Qual o legado do empresário Mário José Gonzaga Petrelli para a comunicação e para nosso Estado?

Petrelli: Tenho muito orgulho de ser herdeiro de um gigantesco legado deixado pelo meu pai, que foi um pioneiro da comunicação e que sempre teve uma visão positiva do papel da imprensa para o desenvolvimento econômico e social. Seu exemplo permeia nossa organização e nosso modelo de interagir com as comunidades. Meu pai sempre valorizou o espírito público e para ele, que respirava política sem nunca ter tido um mandato, a sociedade se move pela liderança dos homens de bem, corretos e íntegros de caráter.

Sempre cobrou muito de todos nós, seus filhos, a questão da responsabilidade da comunicação em favor da sociedade e não em benefício dos seus proprietários. Embora sempre tenha envolvimento com políticos, de todos os partidos, jamais permitiu que seus veículos fossem usados politicamente. Talvez, por esta postura, o Grupo ND tenha conquistado o espaço hoje entre os catarinenses, pela isenção e jornalismo sério que pratica. O doutor Mário foi um homem religioso, que valorizava a família e o trabalho, sempre estendendo a mão ao próximo. Com a sua perda, ele que foi o construtor do modelo do grupo, aumenta muito a nossa responsabilidade para mantermos esta cultura e este legado de um homem que sempre esteve à frente do seu tempo.


Marcello ao lado do pai Mário Petrelli, fundador do Grupo ND (Foto: Divulgação)

Schettini: Pela sua liderança no meio da comunicação e empresarial, já pensou em participar do processo eleitoral?

Petrelli: Não temos pretensão política, sob o ponto de vista partidário. Até porque temos sido muito críticos em relação ao atual modelo que temos no Brasil. Porém, como empresário da comunicação e como cidadão manifesto sempre a minha opinião, contribuo com o debate e me posiciono sobre os temas que são relevantes para a sociedade. Não sou o dono da verdade, mas prefiro opinar que me omitir. A omissão é prejuízo, o erro se corrige. Acho que esta é uma grave falha das nossas lideranças empresariais e entidades de classe, que só se manifestam quando seus interesses são ameaçados. Pensam mais nos seus negócios e empreendimentos do que na sociedade. Estes empresários estão falhando com o Brasil, estão sendo omissos. Somos dependentes do todo: se a sociedade vai mal, as empresas também vão mal.

Nosso país terá de encarar grandes enfrentamentos, como as reformas tributária e política, para dar fim ao atraso e avançarmos em relação ao futuro. Nosso papel, como homem de comunicação, é abrir espaço para que estes assuntos sejam debatidos e ajudem a formar opinião. Com a informação, o cidadão poderá exercer melhor o seu papel, ter discernimento para escolher melhor seus representantes e lutar pelos que considera certo. É preciso melhorar os meios para fins melhores. Acredito que, desta forma, podemos avançar e mudar o Brasil.


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