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Memórias do Campo | Dia da Árvore

Por: Luiz Dalla Libera
21/09/2020 10:19 - Atualizado em 21/09/2020 10:22

No dia 21 de setembro, comemora-se o Dia da Árvore. Nas minhas memórias do campo e tendo como antiga profissão dos meus primeiros quarenta anos de vida na colônia, não sei se hoje há algum com curso superior da classe ecológica a entender sobre a árvore antiga e nativa.

Entre a história da prática e a teoria há diferenças, eu conheço a história e a vida geral da árvore desde a infância. Eu me criei no meio das árvores, não tenho faculdade na área de Ecologia, porém não tenho dificuldades para escrever uma coluna sobre a árvore.

Uma das dificuldades enfrentadas pelos imigrantes que vieram da Itália foi derrubar as possantes árvores, inclusive o pinheiro gigante. Era tudo braçal, não havia motosserra. Da madeira das árvores, só se aproveitava o que era para seu consumo. Os imigrantes mesmo produziam, lascavam, fraquejavam e cerravam à mão, desde a base até a cobertura. Além da madeira não ter custo, só os pregos se compravam e alguns, para economizar, os usava-se pregos e tabuinhas do coberto, chumbava com tarugos de madeira. Isso dava mais mão de obra, mas economizava os pregos e tinham a mesma segurança ou até maior.

Ao passar dos anos, as terras iam ficando fracas e as famílias ficavam grandes na região de Veranópolis, Alfredo Caves, Fagundes Varella até a Serra Gaúcha. Então, a única saída para os filhos dos imigrantes foi pular o rio Uruguai à procura de terras para seus filhos na região de Chapecó. Os únicos donos das terras eram os Bertaso em Chapecó e em Xaxim, os irmãos Lunardi. Para os netos dos imigrantes italianos, um deles foi o meu pai, para chegar nas terras barrigas-verdes teve o mesmo trabalho.

Os italianos, ao chegarem em terras brasileiras, derrubaram as enormes árvores. Oito anos após meu pai imigrar, portanto antes da década de 1950, tive experiência e o trabalho árduo de derrubar as árvores nativas, tudo no braço, porém, a árvore foi a maior ajuda e recursos na sua labuta dos imigrantes em construir os seus ninhos de madeira. Tenho ainda boa memória da casa que nasci, só compraram os pregos e os restantes foram extraídos da árvore, também as cercas só compravam os pregos e não tinha custo de serrar a madeira, era tudo lascada, até fazia cercas em pregos. Era a cerca fixa um barrotinho sobre o outro trançado, tipo grade, inclusive, o meu pai fez uma dessas.

A empresa Irmãos Lunardi S.A. se instalou nas proximidades do estádio do Guarany. No inicio do desenvolvimento de Xaxim, a maior economia era a madeira com exportação para Argentina em transporte fluvial no Rio Uruguai de Goio-Ên a São Tomé e San Borja. Os madeireiros só serravam em toras e as transportavam com balsas com o mesmo destino de madeira serrada.

No final da década de 1940, houve um período de três anos, com pouca chuva, que o rio Uruguai não tinha condições de transportes pelas cachoeiras. O madeireiro Mario Ferrazzo estava com dificuldades financeiras e fez um voto católico em honra à Nossa Senhora de Caravaggio, então, a chuva veio e o madeireiro cumpriu a promessa naquela igrejinha.

Na linha Limeira, também serviu vários anos de sala de aula. Até eu estudei lá três anos. A construção era quase 100% de material extraído da árvore, tinha menos pregos e os vidros das janelas que eram para dar claridade. Nos primeiros dez anos do Frigorífico Diadema hoje, tudo era movido à lenha, também as serrarias e várias moinhos, que eram provenientes de árvores nativas.

Quantas lindas árvores foram desperdiçadas, quando os madeireiros viam que a tora não tinha ponta, não dava nem 5,5 m de comprimento, não eram aproveitadas e perdia-se cerca de um metro de toco. Na colônia, quantas árvores, como pinheiros apareciam apodrecendo, eram mais favoráveis às suas construções, cercas, parreirais e vasilhas de vinho, só de madeira lascada ou cerrada à mão.

A árvore proporcionou um trabalho pesado, apesar de que nos dias frios, elas foram mães de inverno, o fogão à lenha era o melhor conforto, junto com a comida, o pão assado ou o churrasco na brasa. No nosso tempo, o berço e a cama eram feitos de tábuas lascadas. Algumas árvores faziam cestos grandes para colher milho e pasto, como bogio e chincho. Sabe-se que a árvore nunca foi respeitada pela ganância da economia, não há mais tantas que são nativas, porém, os órgãos de conservação lutam pela preservação dessas espécies.

Se a ganância acabou com as árvores nativas, por outro, na colônia não há mais aqueles trabalhos pesados e braçais, como as integrações de suínos, aviários e gado leiteiro. As terras montanhosas se transformaram em áreas de reflorestamento, como eucalipto, por isso hoje o preço da lenha não é tão alto quanto antigamente. A madeira usada em construção também está sendo substituída por materiais mais tecnológicos. Porém, muitas empresas ainda dependem de madeira, como as de papel, ou até mesmo o Jornal LÊ NOTÍCIAS, que faz um excelente jornalismo.

Crônica da árvore

A árvore deu muitas variedades de nomes, como o pau-brasil, Piz, Mato Grosso, linha Limeira em Xaxim, Pinheiro e Pinhais, Arvoredo, Arvorezinha, Timbó, Xaxim, Laranjeira do Sul, Marmeleiro, Canela, Carvalho, que sãos usados nas vasilhas de cachaça.

Também deu origem a nomes de pessoas, como Maria Mole e Mari Preta.

E a nomes religiosos: São José do Cedro, Nossa Senhora do Caravaggio, Espinheira Santa e do Divino, Domingo de Ramos, Palmeira das Missões, etc.


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